Beto Figueiroa / Trago Boa Notícia
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Octávio Arbeláez fala sobre a fenomenal virada de mesa de Medellín

O homem que trabalhou na recuperação ética e moral da cidade que já foi considerada um barril de pólvora fala ao ‘Estado’

Entrevista com

Octávio Arbeláez

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 07h00

Octávio Arbeláez ajudou a acender a luz nos dias em que Medellín parecia um abismo sem fundo. Há 15 anos, quando os narcotraficantes davam à cidade colombiana o título de uma das mais violentas do mundo, jogando um manto de terror sobre a população e recrutando seus filhos para a delinquência, o produtor cultural formado em Direito entendeu que a salvação poderia estar onde menos se esperava. 

Sem negociar com os chefões do tráfico, ajudou a desafiar toques de recolher para deixar teatros e salas de concerto abertos com programação ativa, mesmo se o público não comparecesse. Ao final de um ciclo, Medellín viu suas taxas de violência caírem pela metade. Durante um café da manhã de hotel no Recife, Arbeláez falou com o Estado.

Como Medellín conseguiu vencer a violência?

A sociedade civil teve um papel muito importante, e a população resistiu quando os traficantes diziam para obedecerem ao toque de recolher. E o que fizemos? Deixamos os teatros e as salas de concerto abertas. Era necessário combater as ordens dos chefões do tráfico, que diziam o seguinte: crianças boas dormem cedo, crianças más são nossas.

Houve algum efeito imediato?

Sim, foi muito rápido. Um centro cultural foi fundado nas comunas orientais, que eram o coração da violência, em uma antiga casa de prostituição.

E vocês não precisaram de permissão dos traficantes para atuar?

Não, jamais. Não nos parecia ético naquele momento. Eles estavam matando as pessoas indiscriminadamente!

Mas eles não se sentiam ameaçados por vocês?

Não, nos viam com desdém, indiferença. Para eles, não éramos uma ameaça. E manter a cidade assim, com as casas de show abertas, foi o que permitiu mantermos a esperança. Chegou então o momento em que percebemos como havia riqueza cultural sendo criada pelos jovens e resolvemos criar o Circulart, que é um festival na Colômbia que promove a circulação de bandas não só locais, mas de toda a América Latina. 

Qual o envolvimento do governo nas mudanças?

Quando chegou o governo de Fajardo (Sérgio Fajardo Valderrama) a Medellín, fundamentos sobre as bases da educação e da cultura começaram a ser construídos. Seu slogan era “o melhor para os mais pobres”. E então ele destinou 4o% da arrecadação municipal para a educação e 5% para a cultura. Para assombro nosso, depois de quatro anos, os indicadores mostravam que a violência havia caído pela metade. Em 2014, a cidade foi considerada a mais inovadora do mundo.

O tráfico foi enfraquecido?

Claro que sabemos que nada é permanente, algo sempre pode desestabilizar tudo. Mas o que conseguimos foi o repúdio às práticas dos delinquentes. Hoje, eles não são mais aceitos, estão isolados e escondidos, não vivem mais na luz pública. Houve uma mudança de paradigma.

Das experiências de Medellín, qual poderia dar certo no Brasil?

Há uma questão que é a construção da ética cidadã, e só o povo de seu país pode construir esses discursos. O modelo do Uruguai, por exemplo, com o presidente José Mujica, é um caso. E agora com (o atual presidente) Tabaré Vasquez. Vasquez é médico oncologista. Ele foi eleito no domingo. No dia seguinte, todos os jornalistas o procuravam para as entrevistas e ninguém o encontrava. E onde estava Tabaré Vasquez? Estava trabalhando, atendendo os seus pacientes na clínica. Você pode imaginar um candidato eleito no Brasil fazendo isso?

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