"Octaedro" mantém vivos os jogos de Cortázar

Publicado na Argentina em 1974 e no ano seguinte no Brasil, Octaedro (Civilização Brasileira, 130 págs., R$ 19) foi muito bem recebido, muito mal recebido. Rolmes Barbosa escreveu, no Suplemento Literário do Estado, quando o livro saiu na Argentina, que o conjunto de oito textos (um formato que o autor já adotava e continuaria utilizando) havia obtido o beneplácito de heterogêneos grupos do politizado pensamento platense. "É visível, porém, que de livro em livro o romancista (...) cristaliza sua extraordinária formação de artífice da criação literária e, paralelamente, afirma sua tomada de consciência do papel do escritor no mundo contemporâneo", escreveu Rolmes.Comentando o lançamento da tradução brasileira, de Glória Rodriguez, no Jornal da Tarde, Leo Gilson Ribeiro lamentava os jogos "francamente idiotas" que permeiam as histórias: "E não lhe darão suficiente trabalho em Paris para que Julio Cortázar perca o seu e o nosso tempo com estas armações que emocionarão possivelmente os que se entediam no ócio?", perguntava-se - ou propunha aos leitores que se perguntassem.Mantida a tradução original, Octaedro chega à quarta edição, pela Civilização Brasileira. A revisita à coleção de contos confirma que tinha mais razões o primeiro crítico que o segundo - este, talvez, exigindo, critérios de época, postura menos cifrada, ou mais participante, do escritor. Talvez. Em vez disso, em Octaedro, Cortázar dedica-se, ainda uma vez, a mostrar que as ações humanas não podem jamais ser olhadas por único prisma.É assim a história de Liliana Chorando, conto inaugural do volume. Narrado na primeira pessoa, acompanha os últimos dias de um doente terminal. Ele antecipa o velório, o enterro na Chacarita, a reunião chorosa no café que se vai transformar, pelo álcool e pela comida, em festa; o "enterro definitivo", quando todos se abraçam e seguem seus caminhos; na última linha, insinua que está sendo, ou estará sendo, traído. No entanto, esse moribundo que se confessa, nas primeiras linhas do testamento, dado a imaginar coisas, não está só expondo um último ato de cruel egoísmo. Ele é também generoso e admite que Liliana, a viúva, chorando, significa "o término, a extremidade de onde ia começar outra maneira de viver".Ambigüidade - Da mesma forma, o pacato cidadão de meia idade que recolhe a bela hippie na beira da estrada deserta, numa noite chuvosa, em Lugar Chamado Kindberg, pode tanto estar sendo covarde, ao negar-se o risco de um amor tão inesperado quanto imprevisível, quanto estar dando à mulher a liberdade de seguir seus passos. Nos curiosos diálogos deles, num hotel que parece deserto a não ser pelos dois, a mulher reafirma sempre que nada importa; ainda que não se negue uma noite de sexo, ele tenta demovê-la do desencanto (e plausivelmente vê a si mesmo como uma encarnação possível do desencanto).Diferente de outros escritores (latinos, principalmente) de sua época e (aleatoriamente) considerados autores de histórias fantásticas, Cortázar não começava seus escritos com o universo extraordinário, mas abria uma porta para o extraordinário, fosse mergulhando nos túneis do metrô de Paris, fosse entrando num ônibus suburbano de Buenos Aires em que todos os passageiros carregam flores, menos o narrador.O grande exemplo dessa passagem, em Octaedro, está no conto ´Verão´ e menos óbvio. Um casal que passa o mês numa casa retirada incumbe-se de cuidar por uma noite de uma menina, uma noite já próxima àquele dia em que o casal terá de voltar à cidade, para o "cumprimento das cerimônias dobradiças, o beijo matinal" - e nessa noite não muito quente e de ar muito claro, um cavalo enlouquecido invade o quintal. Durante todo o tempo, a menina dorme - Cortázar não se perde no truque fácil de atribuir ao pesadelo do cavalo invasor a qualidade de materialização do sonho dela (afinal, ela é o único elemento estranho numa rotina suave, suavemente programada e estabelecida). O leitor que opte - o amor assustado e enlouquecido, o cavalo assustado e louco, o mau sonho coletivo. Octaedros são sólidos de oito faces irregulares e também poliedros formados por triângulos equiláteros, pedras, ou pipas no céu.

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