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Ocelot e seu novo brinquedo

Diretor de 'Kiriku e a Feiticeira' diverte-se com o 3D no deslumbrante 'Contos da Noite', que chega antes à TV paga

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h10

No Festival de Berlim, há dois anos, houve um dia inteiro - um domingo - para celebrar o 3-D. A Berlinale exibiu pela manhã a animação de Michel Ocelot, Contos da Noite. À tarde e à noite, apresentou dois documentários também produzidos em 3D - Pina, de Wim Wenders, que eterniza as coreografias de Pina Bausch, e A Caverna dos Sonhos Perdidos, de Werner Herzog.

Jornalistas de todo o mundo, cinéfilos - todos puseram óculos para desfrutar das belezas e da inventividade visual que o desenvolvimento tecnológico pode proporcionar. A curiosidade é que quase dois anos e meio depois, Contos da Noite finalmente estreia nos cinemas brasileiros - na próxima sexta-feira, dia 19. Já vai chegar tarde, porque hoje o belo desenho do francês Ocelot faz sua estreia na TV paga, no Telecine Cult, às 22 horas. A diferença, e não é pouca coisa, está no fato de os Contos da TV serem na versão plana, em 2D. Não deixam de ser mais belos por isso, mas a versão idealizada pelo autor, só na sexta.

Justamente na sexta também entra em cartaz outra animação destinada a atrair o público infantil, nesta temporada de férias - Turbo. Em tudo e por tudo, Turbo e Meu Malvado Favorito 2, já em exibição nos cinemas do País, diferem de Contos da Noite. Turbo mostra um caramujo que adquire a capacidade de se mover a grande velocidade e, por isso mesmo, se torna uma aberração aos olhos de sua espécie. Meu Malvado 2 reafirma o malvado do primeiro filme como um vilão de bom coração - aliás, ele agora é o herói da história, enfrentando o verdadeiro vilão, que se chama El Macho (e, nas versões dubladas, fala com a voz de Sidney Magal).

Contos difere de ambos por ser fiel ao estilo que consagrou Ocelot. (Leia o Quem é.) No novo filme, o tema é a magia do próprio cinema. Um diretor e dois atores decidem, numa velha sala, que histórias contar. No anterior, As Aventuras de Azur e Azmar, o diretor já viajara nas 1001 Noites. Desta vez, a viagem é de novo na noite e não deixa de haver uma retomada do fio de Xerezade para unir os relatos de feiticeiros, princesas, heróis. Nem todas as moças são boazinhas, algumas são malvadas, para fugir ao maniqueísmo das animações para crianças. Os reis, que também existem, são severos.

Em Berlim, em conversas com a imprensa, Ocelot disse que seu sonho sempre foi fazer experimentos com terceira dimensão. "Meu estilo tradicional foi uma decorrência. Não tinha dinheiro para fazer outra coisa. Isso não significa que não esteja feliz com os resultados que obtive. Mas me diverti enormemente brincando com o 3D." A brincadeira vai continuar? "O 3D ainda é muito arcaico, por causa dos óculos. Há um longo caminho a percorrer antes que ele se transforme numa norma industrial." Tanto isso é verdade que, até hoje, os raros filmes em 3D exibidos em grandes festivais passam mais como curiosidades e não costumam ganhar prêmios.

Na animação de Ocelot, pautada por belas cores e elaborada cenografia, o 3D visa ampliar a profundidade de campo, mais do que criar efeitos vertiginosos, como ocorre em muitas produções de Hollywood. Num certo sentido, e apesar da ambição, trata-se daquilo que se pode chamar de lançamento 'miúra' - tão pequeno que o 'circuito' comporta uma sala apenas, o CineSesc. As histórias incluem a do garoto caribenho que vai parar no mundo dos mortos, a da jovem que vê o amado se casar com sua irmã maléfica, que o transforma em lobisomem. E existem o menino do tambor, desacreditado em sua aldeia africana, e o herói que tenta libertar uma cidade asteca do conquistador que só quer saber de ouro.

A variedade e diversidade das histórias criam um padrão - um arquétipo - que ultrapassa culturas e nacionalidades. A diversidade, como a própria técnica, o 3D, é só uma ferramenta. "É interessante dispor de novas ferramentas e tecnologias, mas elas nunca se constituem no essencial. No caso do menino africano, por exemplo, não é o tambor que é mágico. São suas mãos que conseguem operar o milagre", destaca o diretor. É interessante ter outras ferramentas e Ocelot esclarece. "Gosto de nadar alegremente nos contos de fadas. Me alimento deles, que fornecem uma base sólida. Fico mais forte, mas o que busco é sempre uma forma de contar as minhas histórias."

O veterano diretor que completa 70 anos em 2013 não acredita que esteja buscando ampliar seu público com o 3D. "Os jovens se interessam por tecnologia, mas eu não estou preocupado em recuperar minha juventude, por meio da juventude dos outros. Tenho todas as idades dentro de mim. O que me renova é dar vida a tantas fábulas. É um privilégio, e o melhor de tudo é que me divirto. A animação é uma coisa maravilhosa", conclui.

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