Oca mostra arte francesa do século 20

A Oca, no Parque do Ibirapuera, se transformou nos últimos dias num grande museu, reunindo em seus 9 mil metros quadrados um acervo que resume de maneira bastante ampla a história da arte do século 20. As 262 obras que compõem esse panorama pertencem ao Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Georges Pompidou e reservam ao visitante uma série de boas surpresas. Cheia de superlativos, a exposição organizada em parceria do Beaubourg com a BrasilConnects, que será aberta na terça-feira para convidados e quarta-feira para o público, está sendo considerada uma das maiores mostras já feitas pela instituição francesa no exterior. O objetivo dos curadores - Nelson Aguilar, do lado brasileiro, e Laurent le Bon, do francês - é pontuar a história da arte do último século ano a ano, mas sem amarrá-la numa camisa-de-força. Assim, algumas datas são representadas por várias obras, alguns trabalhos foram montados de maneira a abranger um período mais longo de tempo, como "La Danse du Pan-Pan", de Gino Severini, um dos destaques da escola futurista na coleção do Beaubourg. A tela foi pintada originalmente em 1909, mas desapareceu e foi refeita exatamente igual pelo pintor meio século depois. Por isso ela pode ser vista de dois pontos distintos da exposição, repleta de sutilezas de montagem como essa. "Procuramos colocar o visitante dentro da história, que é mundial e não apenas francesa", afirma Nelson Aguilar, fazendo referência ao fato de a exposição reunir apenas obras de artistas franceses ou produzidas em território francês. Há algumas exceções, como várias das produções em vídeo que encerram a mostra, na década de 90, mas que, mesmo elaboradas no estrangeiro, foram produzidas por encomenda do Beaubourg. Dentre esses trabalhos se destaca, por exemplo, o vídeo "Dial History", de Joahn Grimonprez (1997), que se tornou de uma atualidade impressionante já que trata do seqüestro de aviões. O início da exposição, cujo percurso total é de dois quilômetros de extensão e que pode consumir um dia inteiro se o visitante decidir ver todas as obras, incluindo os filmes e vídeos, é o quadro "O Pintor e Seu Modelo", do Douanier Rousseau, o pai da arte naïf que tanto encantou Picasso. Num segundo momento, temos duas esculturas extremamente importantes para a compreensão das enormes reviravoltas que a arte moderna daria alguns anos mais tarde. Frente a frente, o espectador se depara com o bronze ainda tradicional de Matisse, mas que já aponta para o rompimento dos cânones de representação da figura humana, e uma máscara africana que pertenceu a André Derain. Esse tripé abre o caminho para o grande destaque da mostra, tanto em termos artísticos quanto de dimensão. A influência da arte africana, a liberdade criativa de Rousseau e o vanguardismo de Matisse são uma espécie de pilar de sustentação para Picasso e seu grande painel "Parade", que empresta seu título à exposição. Esse grande pano de fundo, criado por Picasso em 1917 para o balé com música de Erik Satie e texto de Jean Cocteau, ocupa o centro da Oca, podendo ser visto de vários lugares da exposição e é sustentado por uma complexa estrutura de metal que pesa 4 toneladas. Para que se tenha uma idéia da monumentalidade do trabalho, ele só foi exibido umas seis ou sete vezes e atualmente é impossível mostrá-lo no Centro Georges Pompidou, pois o pé-direito do prédio tem altura insuficiente. Não por acaso a cena circense tem uma aparência lavada. Le Bon conta que em 1920 ela caiu na água quando era levada para uma apresentação do espetáculo na Argentina e quando Picasso foi chamado para restaurá-la recusou-se, afirmando que dessa forma ela se parecia com um painel de Pompéia. O grande mito do século 20 está representado por outras obras na exposição, em parte também porque ele foi uma espécie de estopim para que o evento se realizasse. Os primeiros contatos entre Nelson Aguilar e a direção do Beaubourg se deram em 1996, quando ele foi curador da 23.ª Bienal de São Paulo e o museu francês emprestou três telas de Picasso para o evento. Desde então, vêm sendo feitas negociações para viabilizar um evento como o que será inagurado na terça-feira. É óbvio que entre os mais de 130 artistas representados na exposição, nem todos têm o brilho e a consagração de um Picasso, de um Brancusi ou de um Kandinsky (para citar apenas algumas das estrelas reunidas na mostra). Mas talvez seja exatamente nisso que esteja o interesse principal da exposição, que busca alinhavar numa montagem extremamente cuidadosa e ousada - que tira o máximo de proveito do prédio desenhado por Oscar Niemeyer - as mais diferentes linguagens e caminhos, ressaltando ao mesmo tempo a diversidade e a riqueza da produção artística num século turbulento como o que acaba de se encerrar.

Agencia Estado,

30 de setembro de 2001 | 18h26

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