Oca exibe obras-primas da arte

A exposição Parade, que será aberta para convidados na terça-feira, propõe-se a investigar de maneira bastante ampla os rumos da arte mundial do século 20, contemplando um grande número de artistas, escolas, técnicas e suportes, sugerindo ao visitante uma espécie de submersão em um vasto universo criativo. De 1901 a 2001 são muitas oportunidades de encontrar obras já conhecidas por meio de fotografias ou descrições, mas que nunca puderam ser vistas frente a frente. E mesmo para aqueles que já tiveram a oportunidade de ir ao Centro Pompidou, que reúne em Paris uma das mais importantes coleções de arte moderna do mundo, isso pode acontecer, pois muitas delas são expostas raramente. Ou jamais foram mostradas antes. É o caso, por exemplo, do belo painel abstrato, em relevo criado por Robert Delaunay para abrir a grande exposição universal de 1937 e que jamais havia sido remontado antes. Mas há também na exposição uma série de obras recentes a serem descobertas, como a encantadora paisagem de Gerhard Richter feita na região de Chinon, na França, ou a enorme instalação O Inferno, um Pequeno Começo, de Jean Tinguely, que necessita de cem caixas para ser transportada. Evidentemente, há grandes desigualdades na seleção, mas há uma série de boas surpresas. Dentre as obras antológicas que o visitante vai descobrir estão Roda de Bicicleta, de Marcel Duchamp (1913), A Musa Adormecida, de Constantin Brancusi (1910), A Guitarra e a Compoteira, de Georges Braque (1919), e o modelo do Monumento à Terceira Internacional, de Vladimir Tatline (1925). Nem só de artes plásticas é feita a exposição. Uma das salas, por exemplo, é dedicada à exibição de Cão Andaluz, de Luis Buñuel (1929), que funciona como uma espécie de abertura ao núcleo surrealista da exposição, que contrapõe uma seleção de fotografias de Maar, Hausmann, Brassaï, entre outros, a uma impressionante escultura de Alberto Giacometti. Por uma janela aberta na parede da sala é possível vislumbrar outra obra do escultor, desta vez Femme Debout II (1959), uma de suas clássicas figuras longilíneas que parecem se esvanecer no espaço. Esse tipo de associação é uma das riquezas da mostra e foi obtida graças à cuidadosa montagem projetada por três jovens arquitetos franceses, Patrick Jouin, Stéphane Maupin e Julien Monfort. Sem cair na tentação de criar uma cenografia que se sobreponha à obra, eles procuraram tirar o máximo de partido da arquitetura da Oca e criaram - em conjunto com a curadoria - vários núcleos expositivos que se sustentam sozinhos, como miniexposições (é o caso por exemplo da sala dedicada à Kandinsky. Ela reúne dez obras do pintor, mostrando sua evolução do expressionismo ao abstracionismo, na primeira década do século), ou então promovendo experiências curiosas, como a colocação de telas importantes de Picasso, Braque e Juan Gris como que flutuando no espaço, sustentadas apenas por uma leve estrutura de metal que se projeta além da balaustrada do terceiro andar. Um dos lemas da montagem, segundo o curador do Beaubourg responsável pela exposição, Laurent le Bon, é "tudo contra o cubo branco". Um exemplo desse exercício de desconstrução do espaço museológico clássico, ao que o prédio de Niemeyer se presta de maneira excepcional, é a homenagem que Le Bon decidiu fazer a Lina Bo Bardi. Admirador da arquiteta italiana que projetou o Masp, ele resolveu criar um núcleo em que as obras se sobrepõem de forma transparente, recriando o que chama de "visão mágica, caleidoscópica", que ela havia conseguido imprimir no Masp e que infelizmente foi abandonada pela atual direção do museu. Lina não é a única arquiteta homenageada. Niemeyer também é lembrado de forma indireta com a inclusão da exposição da maquete da Capela de Ronchamp de Le Corbusier, estabelecendo uma espécie de diálogo entre o mestre do modernismo arquitetônico francês e o autor da Oca. Cabe também à arquitetura encerrar a exposição, com uma seleção de projetos importantes como a "Très Grande Bibliotque" ou o novo "Musée des Arts Premiers", que será construído em Paris e cujo concurso foi vencido este ano por Jean Nouvel. E, como era de se esperar, há um núcleo bastante importante de trabalhos referentes ao Pompidou, com direito a maquetes e obras que fazem referência ao centro cultural. A literatura é a única das artes que não está representada na Oca, mas ela tem um espaço nobre no catálogo geral. Cada um dos anos representados na exposição tem um texto que o acompanha, reproduzido ao lado da imagem equivalente. Esses textos, selecionados ao acaso por um crítico literário francês - que não teve acesso às imagens -, muitas vezes estabelecem interessantes diálogos com a obra a que se referem, num intrigante jogo de livre associação que provavelmente encantaria os surrealistas representados na mostra. Parade - 100 Anos de Arte. De terça a sexta, das 9 às 21 horas; sábado e domingo, das 10 às 21 horas. R$ 7,00 e R$ 3,50. Agendamento pelo 5081-2829. Oca. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 2, tel. 5573-6073. Até 15/1. Abertura na terça-feira, às 20h30, para convidados

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