Obsessão, desejo e morte

Lolita, de Vladimir Nabokov, modelo de ironia narrativa, ganha nova tradução no País

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Uma das maiores vitórias da ironia literária do século passado, o romance Lolita, do russo Vladimir Nabokov (1899-1977), é reeditado com nova tradução. Desde sua publicação, em 1955, o livro esteve envolvido em inúmeras polêmicas e sempre saiu vitorioso de todas as tentativas de reduzi-lo e de matizá-lo: incensado como erótico e imoral, conclamado tanto como romance popular quanto experimental, lido com todos os aparatos críticos imagináveis, Lolita é, acima de tudo, uma comédia - a comédia humana.

O romance abre com um prefácio em que seu autor, John Ray, Jr., informa que o livro em questão é um manuscrito de um criminoso que acaba de morrer antes do julgamento de seus. É Ray Jr. quem o satirista Nabokov sabiamente elege para alertar os leitores dos riscos que ele, enquanto autor, irá infligi-los: serem seduzidos por uma mente criminosa. O abjeto Humbert é, em sua própria versão dos fatos, um esteta - inicia seu relato com uma das passagens mais famosas da literatura. E alerta que é um assassino; conjura o júri ao seu relato. No fim do primeiro capítulo, breves quatro parágrafos, todos já são cúmplices de sua doença.

Quanto mais o leitor tiver em mente a situação do relato - escrito na prisão -, mais engraçada a narrativa se torna. Humbert descreve-se como alguém de uma linhagem nobre, e remonta sua obsessão por Lolita a um contrariado amor europeu de sua adolescência. Algo deprimente, após um recente divórcio, vai aos EUA lecionar literatura em uma faculdade do interior com o desejo de escrever um pomposo livro sobre poesia francesa. Ao conhecer a filha da dona da casa onde aluga um quarto, é arrebatado de paixão e de desejo.

Após as tramoias mais descaradas para se manter ao redor de Lolita, uma fatalidade conveniente faz com que os obstáculos desapareçam. A felicidade torna-se tragédia: o desejo idealizado é perfeito, satisfaz sem pedir em troca - longe da menina minada e manipuladora que ele tem que se desdobrar para conter. Depois, Humbert sofre com a ação do tempo sobre sua ninfeta: em uma das passagens mais notáveis do livro, após observar longamente Lolita e notar as mudanças em seu corpo, Humbert descreve Dolores como "sua amante decadente". Toque de humor sinistro revelador do grau de perturbação e alienação em que Humbert se encontra.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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