Observações de um orangotango

Uma preguiça sexual faz a mãe orangotango engravidar uma vez a cada oito anos

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2016 | 02h00

Aprendi a ler sozinho. Não sei com que idade, porque não sei, e ninguém sabe precisar, a minha idade. Foi no fim da infância. Aprendi fazendo associações primeiro nas lousas do centro de reabilitação. Depois, usei livros infantis, jornais, até partir para a biblioteca do zoológico em que moro atualmente.

Hoje, leio jornais velhos em que vêm as frutas do almoço. Acompanho os acontecimentos. Enquanto meus parentes símios, macacos primos ou sei lá quem são, que compartilham a mesma jaula comigo, digladiam-se por causa das bananas, me interessa ler o horóscopo e as letras que formam palavras que formam sentenças que formam uma descrição, uma opinião, um relato, que contam uma história, ilustrada por fotos, das muitas vividas por um membro da fascinante raça que é a de vocês, a humana, mais próxima dos Pans e Gorillas, primatas que, como vocês, distanciaram de nós, os Prongos, há mais de 15 milhões de anos. 

Nós quatro formamos os quatro símios mais inteligentes da natureza. Vocês, por mérito, são os campeões com muitas cabeças, braços e troncos de vantagem. Sou uma das espécies de símios mais isoladas e, portanto, desconhecidas pela ciência. 

Não me lembro da minha mãe, apesar dos orangotangos serem conhecidos como a espécie de maior apego entre mãe e filho. Vivemos grudados por oito anos. Uma preguiça sexual ou zelo exagerado faz da mãe orangotango engravidar em média apenas uma vez a cada oito anos. 

Sim, somos os bebês mais mimados da Terra, cujo cordão umbilical, no sentido figurado (ah, o sentido figurado, ideia que demonstra o quão longe vai a brilhante mente humana, que consegue alterar do contexto, mudar o valor conotativo, dar um sentido simbólico, ou mais longe ainda, o que mais amo nos humanos, antecipar um pensamento, elaborar metáfora, a junções de palavras), mais demora a ser rompido. 

Somos conhecidos por fazer de grandes folhas nossos guarda-chuvas, na época das monções. Por resolvermos quebra-cabeças e sermos mais habilidosos a resolver problemas de memória que os chimpanzés. 

Não sei se você sabe, mas nós, orangotangos, viemos de florestas duas ilhas apenas, Sumatra e Bornéu, e que não sabemos nadar, o que fez com que nos dividissem em orangotangos-de-sumatra e orangotangos-de-bornéu. Sou incapaz de precisar se sou de uma ou de outra espécie. Nem ninguém sabe. Fui encontrado numa gaiola de traficantes de animais. Provavelmente mataram minha mãe e me raptaram. Se lembro dela? Vagamente... Triste isso. Somos tão parecidos com vocês que orangotango é “urang-utan”, em malaio homem do bosque. 

Nossa carne, nossa pele, nossos ossos não têm valor. Somos disputados há séculos bebês para sermos domesticados, como os coitados africanos chimpanzés. Assim matam nossas mães sem piedade. Se você encontrar algum parente meu num zoológico, pode contar: é um órfão como eu, que sente um vazio existencial edipiano.

Acho formidável a invenção do horóscopo. Admiro muito a humanidade. Me diverte. Sempre busca o sentido das coisas, o que aconteceu no passado e acontecerá no futuro. Busca explicações. Sempre buscou. Nos filósofos, matemáticos. Na religião, invenção fabulosa. Na ciência. Li tudo isso. Me espantei com os questionamentos dos filósofos pré-socráticos. Acompanhei com cuidado a evolução do pensamento. Até descobrir o zoroastrismo que, fantástico, dividiu o mundo entre o bem e o mal, o certo e o errado, inventou um deus só. 

A religião me fascinou. Virei um seguidor do profeta Zaratustra. Não sou de uma família religiosa. Sou de um bando que come folhas e frutas, por vezes mel e cupim, que prefere a copa das árvores, se locomove com a ajuda de garras, que pesa uns oitenta quilos e que causa risos na humanidade.

A religião me causou um desencanto quando li, pelos livros de história, sobre guerras monumentais motivadas por elas, como as Cruzadas. Até cair na minha mão o exemplar de A Origem do Homem, de Darwin. Li e reli várias vezes. Que fantástico trabalho deste naturalista inglês. Um gênio. Minha autoestima melhorou muito. Quer dizer, ha-ha-ha, quando descobri que vocês também descendem de um macaco. Aquela história de Adão e Eva era parte da imaginação fértil das Escrituras. Que não são apenas vocês filhos de Deus, mas todos nós. Que uma parente, Lucy, mais parecida conosco, peluda, é o elo mais antigo que vocês podem encontrar de sua espécie. 

Decidi partir para este projeto, o de me comunicar com vocês, para dizer duas coisas, já que me sinto uma espécie de primo separado pela casualidade (ou necessidade) da evolução. Vocês estão engordando. É nítido com o passar dos anos. Estão mais arredondados nas pernas, na cintura, nos braços, até nos pescoços. Não todos. A maioria. Anda com dificuldades. Lentamente. Quase sem dobrar os joelhos. Suam. Respiram com sofrimento. 

Segunda observação. O que é esta luzinha mágica numa tela que tira a atenção de vocês? Celulares, eu sei. Não estão exagerando? Vocês perdem a capacidade de observação. Perdem o interesse pelo que têm ao redor, para entender o passado, o futuro. Perdem aquilo que fizeram de vocês a espécie dominante do planeta, a vontade de conhecer, a profunda concentração, e de antever o que outros pensam ou farão. 

Me preocupo. Sem a capacidade de distinguir o real do digital, o que seremos de nós, já que toda natureza foi domada, todas as espécies estudadas, e muitas delas, como eu, enjauladas a seus cuidados?

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