Obras raras ainda inacessíveis aos pesquisadores

Um precioso acervo da literatura brasileira está inacessível aos pesquisadores. Tudo que o editor José Olympio colecionou dos autores que publicou entre os anos 30 e 80, encontra-se em pastas e caixas num depósito em Bonsucesso, na zona norte, sem catalogação e sem poder ser consultado por quem estuda nossa literatura. São originais, provas e primeiras edições de livros de Gilberto Freire, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Sérgio Buarque de Holanda, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, só para ficar entre os clássicos. Todos eles passaram pela Editora José Olympio."Tem mil coisas para serem analisadas. Os documentos e livros passarão por uma triagem e serão acomodados em estantes para ficar à disposição do público especializado", diz o curador desse acervo, Sebastião Macieira, funcionário da editora há 50 anos e ex-secretário do editor, a quem chama de J.O., como a maioria dos muitos amigos que Olympio teve em vida. Macieira só não sabe quando o depósito será aberto aos pesquisadores, mas espera que seja logo. "J.O. tinha noção da importância do acervo que guardava e os novos proprietários da editora, os herdeiros de Sérgio Gregori, sabem que têm uma preciosidade em suas mãos."O bibliófilo José Mindlin concorda com Macieira. Há pouco mais de dez anos, logo após a morte do editor, ele procurou Gregori e fez uma oferta para comprar parte do acervo de Gilberto Freire, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. "Na época, foi caro para mim, mas valia a pena", conta Mindlin, sem revelar quanto pagou. Especialista no ramo, foi direto às preciosidades, como a primeira prova de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, de 1938, ainda com o título de O Mundo Coberto de Pena, o primeiro dado pelo autor. "Tenho essa prova com o nome do romance impresso riscado e o definitivo escrito à mão."Mindlin tem ainda originais de Sobrados e Mocambos, de Gilberto Freire, com um volume de notas do autor e, de Guimarães Rosa, os originais datilografados e provas corrigidas pelo próprio autor de Corpo de Baile, Grande Sertão: Veredas e Sagarana. "Deste último, tenho anotações às edições seguintes, até a quinta, quando José Olympio deve ter dito que o livro estava pronto", diz o bibliófilo, que já expôs parte de seu acervo no museu da Chácara do Céu, no Rio. "Tenho também um dos três únicos volumes da primeira edição de Sagarana."O que ficou no acervo da José Olympio também é precioso. Há a primeira edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico Buarque), de 1936, os originais datilografados e um recibo assinado por ele, de 3:000$000 (três contos de réis), relativos ao pagamento pelo livro, que inaugurou a coleção Documentos do Brasil. O segundo volume foi Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, do mesmo ano, embora já houvesse uma edição anterior de pequena tiragem. Estes dois volumes crescem em importância porque os livros são considerados, junto com Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, a trilogia que fundou a moderna historiografia brasileira.Atualmente, tudo está em pastas que ficam guardadas, numa ordem que só Macieira entende, na sala do atual presidente da José Olympio, Manuel Domingues. Há também uma prova da capa da terceira edição de Casa Grande e Senzala, em que o artista plástico Cícero Dias desenhou, sobre o mapa de um engenho de Pernambuco, as modificações que achava convenientes para tornar o volume mais atraente ao público. Em outras pastas, há capas e ilustrações de Luiz Jardim para livros como Sagarana, de Graciliano Ramos, e a primeira edição de Floradas na Serra, de Dinah Silveira de Queiroz.A farta correspondência trocada entre o poeta Carlos Drummond e José Olympio é outro ítem importante. Através dela, fica claro o cuidado de Drummond com cada etapa da edição de seus livros. Para José e Outras Histórias, por exemplo, mandou mais de dez sugestões de capa, desenhadas por ele mesmo. Há ainda bilhetes sobre assuntos corriqueiros ou profissionais. Sintomática é uma folha datilografada com o poema E Agora, José?, datada de 1984, quando José Olympio vendeu a editora e Sérgio Gregori. Em resposta ao poeta, o editor o consolava dizendo que a casa continuava só que sob outra administração.José Lins do Rego talvez seja o romancista com mais ítens disponíveis no acervo da José Olympio. Seu primeiro livro na editora, Banguê, foi publicado em 1934 e a segunda edição do ano seguinte, teve duas capas diferentes, uma de Santa Rosa e outra de Cícero Dias, ambas encadernadas dentro dos padrões da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Detalhe: estas normas foram criadas após essa encadernação. "Talvez venham dessa iniciativa", arrisca Macieira. "J.O. tinha o cuidado de fazer isso nos outros livros."Entre esses outros livros está o primeiro de Rubem Braga O Conde e o Passarinho, dos anos 40; o primeiro de Guilherme Figueiredo, 30 Anos sem Paisagem; a estréia de Graciliano Ramos na editora com o romance Angústia, de 1936. Macieira conta que, nesta época, Ramos estava preso na Ilha Grande, pela ditadura de Getúlio Vargas, e estranhou que um editor quisesse publicar o livro de um presidiário. Publicou estes e vários outros, inclusive Memórias do Cárcere, que teve edição em três volumes, em 1953, após a morte do escritor.Os primeiros romances de Jorge Amado, autor da José Olympio, também estão lá, com capas de Santa Rosa, o cenógrafo que revolucionaria o teatro brasileiro nos anos 40 e que era ilustrador da editora. Em outra pasta, Macieira guarda muitos recibos e recados dos escritores. "Quando o acervo estiver organizado, os pesquisadores poderão fazer consultas mais facilmente", promete o curador. "Há muita procura, mas infelizmente ainda não podemos atender a essa demanda."

Agencia Estado,

26 de janeiro de 2001 | 15h56

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