Obras preciosas do modernismo na coleção Giobbi

Fundação José e Paulina Nemirovsky inicia programa de exposições para apresentar coleções paulistas

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Os leões míticos de terracota do artista pernambucano Nuca (1937-2004) são os guardiães, na casa do colecionador paulistano de ascendência italiana Domingos Giobbi, de um acervo com mais de uma centena de obras modernas, sacras e profanas, algumas delas, de alto valor.

 

 
Obra-prima. Autorretrato pintado pelo modernista Ismael Nery em 1927

   

Tanto que na exposição Coleção Domingos Giobbi - Arte, Uma Relação Afetiva, que acaba de ser inaugurada na Estação Pinacoteca, no espaço da Fundação José e Paulina Nemirovsky, um conjunto de esculturas em argila do artista popular está também a "vigiar" quadros de Alfredo Volpi, Ismael Nery, Di Cavalcanti e Lasar Segall, entre outros, na bela mostra que apresenta para o público uma seleção de peças do colecionador.

 

A exposição dá início ao Programa Coleções Paulistas, que a Fundação José e Paulina Nemirovsky - criada, ela mesma, a partir do acervo do casal de colecionadores - vai realizar em seu espaço expositivo em parceria com o museu Pinacoteca do Estado. Idealizado pela curadora da Fundação Nemirovsky, Maria Alice Milliet, o projeto é uma forma de promover o diálogo entre coleções, exibi-las publicamente e tratar de um tipo de colecionismo, realizado, principalmente, na segunda metade do século 20, investido numa relação mais afetiva e pessoal entre o colecionador e artistas.

 

Inevitavelmente, coleções como a de José e Paulina Nemirovsky ou a de Giobbi (com cerca de 50 anos de aquisições e 85 de idade), por exemplo, pelo período e pela maneira com que foram criadas, conservam preciosidades modernistas imprescindíveis na história da arte brasileira. "São coleções que apresentam uma coragem de misturar o culto e o popular tão própria do modernismo e que trazem a arte sacra como resgate da tradição", analisa Maria Alice. "Com esses acervos se consagra essa virada", diz ainda a curadora.

 

Domingos Giobbi nasceu em São Paulo em 1925, mas viveu na Itália até os seus 26 anos. Retornou ao Brasil em 1951 e aqui montou uma empresa de pavimentação de ruas.

 

A primeira peça que comprou foi uma cômoda de jacarandá, como Giobbi conta em extenso depoimento a Maria Alice Milliet, publicado no catálogo da exposição, mas o primeiro quadro mesmo, foi a tela Gasômetro (1929), de Emiliano Di Cavalcanti, comprada no Rio de Janeiro.

 

Encanto. "A obra tem uma atmosfera metafísica que encantou Domingos", conta Maria Alice. Na exposição, ao lado de Gasômetro, há outra tela inusual do estilo do pintor das mulheres e mulatas, a paisagem Paquetá (1928), em que duas árvores se unem em suas copas e galhos superiores.

 

Mas apesar das telas de Di Cavalcanti, dos conjuntos de obras, por exemplo, de José Antonio da Silva, Gomide, Dacosta e Nery - representado, principalmente, pelo quadro Autorretrato, de 1927, que, quando comprado, na década de 1970, era a obra com a mais alta cotação em leilão brasileiro (Giobbi na época afirmou que pagaria qualquer quantia por essa obra-prima do modernista nacional, certamente mais importante que um "mau Picasso") - o colecionador é reconhecido como detentor de uma significativa coleção de telas de Alfredo Volpi (1896-1988).

 

Giobbi conheceu pessoalmente Volpi em 1972, quando teve de levar ao ateliê do artista, no bairro do Cambuci, uma tela de sua autoria que precisava de reparo. É que o colecionador havia emprestado um quadro de Volpi para retrospectiva do artista no Rio naquela época e alguém aproximou um cigarro da tela produzindo, com a brasa, uma mancha na obra. "Foi a partir desse encontro que começou um relacionamento mais íntimo", conta Giobbi. A amizade se deu naturalmente ainda pela afinidade italiana (Volpi nasceu em Lucca, na Toscana). Mas o colecionador já adquiria obras do pintor mesmo antes de conhecê-lo.

 

Além das esculturas religiosas paulistas em terracota policromada do século 17, e das pequenas obras em nó de pinho do século 19, que remetem a certo sincretismo africano, ambas de Giobbi, foi inaugurada também a mostra Arte Sacra na Coleção Nemirovsky, com peças de desde o século 12, muitas restauradas, recentemente, por Júlio Moraes.

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