Obras literárias em fragmentos

A Flip já tinha acabado para boa parte das quase 20 mil pessoas que acompanharam os debates em Paraty quando, na tarde de domingo, a Tenda dos Autores recebeu uma das mesas em que mais se falou pura e simplesmente de literatura nesta oitava edição do evento. Longe de lotar os 850 lugares da tenda, em pleno Dia dos Pais, o encontro entre a cubana Wendy Guerra e a chilena naturalizada brasileira Carola Saavedra ganhou força com a mediação do escritor João Paulo Cuenca, que não só se mostrou conhecedor da obra de ambas, como recorreu a teorias de estudiosos de narrativas, como Ricardo Piglia, para embasar questões.

Raquel Cozer ENVIADA ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2010 | 00h00

Sob o tema Cartas, Diários e Outras Subversões, a mesa partia do fato de as duas escritoras escreverem romances com base em fragmentos de outras formas de narrativa, como áudio (caso de Dromedário na Janela, mais recente romance de Carola, em que a autora reproduz na narração o que seriam fitas gravadas pela protagonista), cartas e diários (expediente usado por Wendy em romances como Nunca Fui Primeira-Dama, publicado este ano no Brasil). "Ao escrever como se transcrevesse fitas, busquei construir um simulacro da realidade, me afastar da palavra escrita e refazer a palavra oral tal como ela poderia ser sem som", explicou Carola. Wendy disse não aguentar mais "ler livros que aborrecem por nunca explorar experimentações na estrutura do texto."

O debate também avaliou a exposição do escritor na literatura, já que Wendy, que optou por continuar vivendo em Cuba e vê de perto as dificuldades da população de seu país, parte de dados biográficos para sua obra. "Não posso ter relação filial com outra coisa que não seja a arte", afirmou a cubana sobre a proximidade entre o que vive e escreve.

E houve espaço para momentos de descontração, como quando Cuenca relatou o receio que sentiu ao andar, no dia anterior, numa lancha conduzida em alta velocidade por Wendy. "Admiro os camicases. Seria um bom final bater meu barco na Flip", disse ela, cheia de poesia, ao que o carioca rebateu: "Eu não precisava fazer parte desse projeto!"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.