Obras em resposta a regimes totalitários

Shostakovich e Camargo Guarnieri em programa inteligente, no domingo

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2013 | 02h17

Duas obras bastante próximas, do ponto de vista cronológico, construíram um programa inteligente que se transformou num belo e envolvente concerto, na ensolarada manhã de ontem, no pequeno e aconchegante auditório da Fundação Maria Luísa e Oscar Americano, no bairro do Morumbi.

Separadas entre si por apenas quatro anos - o quinteto para piano e cordas do russo Dmitri Dmitriyevich Shostakovich (1906-1975) é de 1940 e o segundo quarteto de cordas de Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993) de 1944 -, representam respostas assemelhadas a regimes totalitários vigentes em ambos os países (aqui, uma ditadura de direita, o Estado Novo; na URSS, o regime comunista que censurava com mão de ferro a criação artística).

As coincidências param por aí. A resposta nacionalista de Camargo Guarnieri em seu quarteto é alegre, decidida. A de Shostakovich é torturada, cheia de ambiguidades porque imposta pelo regime. Num, a alegria é cândida; no outro, é "fake" quando surge emoldurada por longos e lancinantes movimentos lentos.

É curioso que Guarnieri tenha escrito seu quarteto de modo tão cândido e com mão de mestre no manejo da forma musical num período em que seu guru confesso, Mário de Andrade, adotava Shostakovich como modelo de artista politicamente engajado.

Quando Camargo Guarnieri embarcou para Paris, onde estudaria com compositor e crítico musical francês Charles Koechlin, Mário pediu-lhe por carta que conhecesse a obra de Shostakovich. O início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, abortou as aulas com Koechlin e uma maior intimidade com um compositor que não lhe apetecia.

O Quarteto Camargo Guarnieri, fundado há nove anos pela violinista Elisa Fukuda, que acaba de lançar CD com a integral do compositor que homenageia no nome (três quartetos e um movimento isolado, Angústia), se de um lado assumiu a parte mais arisca do primeiro movimento do segundo quarteto, que explora muitos uníssonos dos quatro instrumentos e intervalos angulares, de outro foi sentimental o suficiente para nos deixar entrever o abismo que separa essa obra do quinteto russo.

O quinteto é o único e, sem dúvida, uma obra-prima. A sequência de movimentos lentos, o contraponto cerrado da grande fuga, a escrita difícil para os músicos que torna ainda mais torturadas as sonoridades que se alternam quase sempre em sordina, pizzicati e diálogos soberbos entre o piano e o violino isolados, ou então entre o piano e a viola, e mesmo com o violoncelo. Sonoridades carregadas de indefinições, angústias e sofrimento - mesmo no vertiginoso Scherzo que arrancou aplausos entusiasmados no meio da execução e foi bisado no final. A alegria do Scherzo é falsa, oficialesca; apropria-se hipocritamente de uma melodia folclórica pra ficar bem com o regime. Nesse sentido, é útil ouvir também seu trio para piano e cordas, composto no mesmo ano do de Guarnieri, 1944. Nele Shostakovich homenageia um amigo de resistência, Ivan Sollertinsky, morto dez dias antes da composição. Em ambas as obras, a mesma sensação de falta de ar, de desassossego.

Está bem; esqueçamos o viés político em Dmitri Shostakovich. Ainda assim, a sua é música de elevadíssima qualidade. Vale a pena esquecer o nacionalismo às vezes ingênuo de Guarnieri. Afinal, sua música se impõe igualmente por sua elevadíssima qualidade.

O Quarteto Camargo Guarnieri soube deixar isso bem claro para o público presente. Isso, definitivamente, não é pouco. É raro.

Atenção para o pianista Victor Cayres de Mendonça, de 32 anos, nascido em Indaiatuba, como Camargo Guarnieri, que nasceu em Tietê, um legítimo produto do interior do Estado de São Paulo, que demonstrou enorme talento e integração perfeita com as cordas.

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