Obras de Manfredo de Souzanetto no Instituto Moreira Salles

Nascido numa pequena cidade em Minas Gerais, Jacinto, no Vale do Jequitinhonha, em 1947, Manfredo de Souzanetto não tinha quase nenhuma oportunidade de entrar no campo da arte. Havia ceramistas em sua região - tanto que um de seus primeiros desenhos, realizado quando tinha 12 ou 13 anos, foi justamente feito como uma espécie de estampa para potes e botijas que uma senhora produzia. Depois, mais tarde, começou a fazer desenhos para seus cadernos de escola e em Almenara, onde ele cursou o ginásio, a única pintura que existia era uma natureza-morta no consultório do dr. Hélio Guimarães, o médico da cidade. Sua grande revelação, por assim dizer, foram os dois livros que ele ganhou, quando jovem: exemplares da série Gênios da Pintura, um sobre Matisse, outro sobre Picasso. Agora queria ser um artista, e foi atrás disso: estudou em Belo Horizonte, na França e no Rio, onde vive, uniu uma sólida formação com sua vontade natural.A pintura foi e é seu campo de atuação por anos, mas uma vertente vem se firmando em sua trajetória, a da escultura, e é ela que está presente, exclusivamente, na mostra que o artista inaugura nesta quinta-feira no Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo. A exposição, já apresentada no Rio, Belo Horizonte e Poços de Caldas, marca seus 30 anos de carreira artística - na ocasião será lançado em São Paulo o livro Manfredo de Souzanetto - Paisagem da Obra, editado pela Contracapa.Como conta o artista, o caminho do escultórico foi também natural. "Na pintura, comecei a trabalhar a questão da fragmentação da tela e do chassi. Para essa pesquisa, comecei a fazer marcenaria e o processo de construção me levou à tridimensionalidade, queria fazer uma obra que pudesse ficar em pé, no meio de uma sala", diz. Homo faber, como define, começou a realizar peças em que pudesse explorar a relação com o espaço, a fragmentação e o volume sem deixar de lado todos os outros caminhos que percorreu - "e ainda quero fazer muito mais, comemorar mais outros 30 anos de carreira", brinca.São esculturas, algumas em grande escala, realizadas com madeira e outros materiais variados, como couro, cobre, vidro e até chifres. São obras curiosas, que unem rigidez e vergaduras - algumas são "formas sensíveis", naturais ao modo de um galho de árvore, diz o artista -, os campos escultórico e o pictórico, com o uso de cores. "Reúno em meu trabalho duas tradições: a ressonância geométrica (influenciada pelos estudos de matemática em sua inacabada formação na arquitetura) e a vida, ou seja, a sensualidade da curva", diz Manfredo - não à toa ele chama suas peças de Organométricos.O artista não deixa de assumir a influência mondrianesca e do construtivismo russo - as cores usadas são, muitas vezes, as primárias como o vermelho, o azul e o amarelo, sem falar da geometria e do caráter de construção. "São influências sim e citações, um trabalho a partir da história da arte. Mas o repertório é muito maior, extenso. Há também a geometria popular, do artesanato mineiro. Retrabalho os dados à minha maneira", afirma o artista. Quando, em sua exposição em 1983, na Galeria Paulo Figueiredo, em São Paulo, a crítica o apresentou como uma derivação do concretismo ou neoconcretismo brasileiro, isso o incomodou: "Acho que a qualificação foi uma facilidade jornalística, para me rotular. Minha aproximação com a geometria decorre muito mais de meus estudos de arquitetura e do interesse que tinha pela experiência da Bauhaus", diz o artista em entrevista concedida ao superintendente executivo do IMS, Antonio Fernando De Franceschi, presente no catálogo desta atual exposição. Manfredo de Souzanetto: Esculturas. Instituto Moreira Salles. Rua Piauí, 844, 1.º andar, Higienópolis, 3825-2560. 3.ª a 6.ª, 13 h às 19 h (sáb. e dom. até 18 h). Até 22/10. Abertura hoje.

Agencia Estado,

13 de julho de 2006 | 12h57

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