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Obra traz nova visão dos signos de Eckhout

Estudo de historiadora americana faz análise rigorosa do pintor holandês

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2010 | 00h00

Para alguns, trata-se de uma obra de estrito valor documental. Para outros, o conjunto de pinturas e desenhos realizado pelo artista holandês Albert Eckhout (c.1607-1666), integrante da comitiva de Maurício de Nassau, representa um marco artístico da pintura barroca europeia. Seja como for, o lançamento do livro Visões do Paraíso Selvagem, hoje, às 18h30, na Livraria da Travessa, no Rio, com uma palestra da autora e historiadora de arte norte-americana Rebecca Parker Brienen, coloca a obra de Eckhout em novo patamar, ao analisar aspectos normalmente desprezados por quem viu no retrato que ele fez do Brasil apenas uma peça de propaganda do paraíso tropical encomendada por Nassau para atrair investidores europeus.

linkVeja imagens de Eckhout sobre o Brasil colonial

O livro da Capivara Editora, patrocinado pelo grupo BBM, traz a obra completa de Eckhout reunida pela primeira vez. Publicado originalmente há quatro anos pela Amsterdam University Press, esse raisonée do pintor vem se somar aos catálogos de Debret, Rugendas, Taunay e Frans Post publicados pela editora, ajudando a difundir a visão que os pintores viajantes franceses, alemães e holandeses tinham do Brasil. Segundo a autora, o reconhecimento da importância artística dos trabalhos dos dois principais pintores holandeses trazidos por Nassau, Albert Eckhout e Frans Post, tem crescido muito desde quando ela iniciou o trabalho de catalogação da obra do primeiro, em 1996.

As primeiras impressões de Eckhout sobre o Brasil colonial, quando o pintor desembarcou no Recife, em 1637, devem ter sido ótimas, imagina a historiadora, considerando a liberdade com que retratou principalmente os índios da terra - canibais, inclusive, a julgar por um de seus mais conhecidos retratos, o de uma mulher tapuia pintada em 1641 com um cesto às costas. Detalhe: desse cesto sai um pé cortado e a mão direita da nativa segura outra mão decepada, também cobiçada pelo cão que a segue.

Escândalo. A tapuia canibal não é uma reprodução de outro pintor viajante, mas um desenho original feito "in situ", garante a autora Rebecca Parker Brienen, que imagina Eckhout como um jovem aberto a novas experiências e livre de preconceitos - até onde isso era possível para alguém vindo de um país calvinista. Dificilmente um pintor católico teria tal liberdade, pois essa é sem dúvida uma pintura controversa: nela, a índia canibal olha o espectador de um jeito passivo, calmo, que contrasta com a violência do piquenique antropofágico - talvez endocanibal, havendo divergência sobre o costume tapuia de consumir parentes como forma de tributo ao morto.

Não seria essa a única pintura a provocar escândalo entre civilizados europeus, destinatários de tais obras. Dois anos depois de retratar a índia canibal, ele pintou um gigantesco painel (172 x 295 cm) em que os tapuias (ou índios tarairiu, como querem os etnólogos) executam uma dança bestial, viril, com seus pênis envolvidos com a sobra da pele do prepúcio presa com uma cordinha, enquanto índias debochadas riem dos seus parceiros. Então, além de consumir bebês natimortos e parentes, os tapuias teriam ainda senso de humor? Eckhout retrata o que vê não com um olhar preciso, etno-histórico, mas segundo sua interpretação, algo incômoda para quem se acostumara a ver os ameríndios parcialmente vestidos - isto é, para os europeus que receberiam esse acervo.

No palácio. No curto período em que Maurício de Nassau esteve à frente do Brasil holandês, os primeiros trabalhos artísticos e científicos de seus protegidos, a despeito de serem reconhecidos como importantes documentos sobre a vida no Novo Mundo, não eram destinados ao solo europeu, mas ao palácio do governador holandês no Recife. Eckhout era o retratista que deveria pintar os tipos, naturezas-mortas e os bichos do Brasil. Frans Post seria o criador de paisagens, o pintor encarregado de documentar como viviam os senhores e seus escravos nas fazendas. Aliado à dupla ainda estava Georg Marcgraf, erudito com amplo conhecimento de história natural e astronomia. Marcgraf usa no frontispício de sua Historia Naturalis Brasiliae (1648) a imagem de um casal de índios nus e jovens - desta vez sem nenhuma sugestão de canibalismo - numa espécie de floresta edênica repleta de araras, capivaras, flores e frutos. "Eckhout sempre trabalhou nesse registro alegórico", observa a historiadora Rebecca Parker Brienen. "Em todos os retratos dos índios surgem diversos elementos simbólicos."

Naturalmente, esse tipo de informação etnográfica não interessava apenas aos cientistas. Tinham a função de facilitar a expansão da colônia, informando aos possíveis comerciantes que aqui desejavam se estabelecer como melhor dominar os índios. A autora, porém, não ousa ir além desse ponto. Diz que seu trabalho não é nem o de uma antropóloga nem de uma naturalista. Ela desconfia que o uso das imagens criadas por Eckhout, representando os recursos naturais e humanos da colônia, reafirmaram a liderança de Nassau na colônia, mas não foi esse o propósito de sua pesquisa, de caráter formal, que exigiu da historiadora um périplo europeu por universidades, museus e bibliotecas. Um capítulo inteiro do livro (o segundo) é dedicado ao exame dos desenhos a giz e pastel e os estudos da flora e fauna brasileiras, agora na coleção da Biblioteca da Universidade Jaguelônica em Cracóvia, Polônia.

Naturalista. No primeiro capítulo, a autora tenta contar a vida do principal artista da corte de Nassau, cuja história é pouco conhecida - Eckhout, diz ela, é citado apenas duas vezes nos registros da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (a West-Indische Compagnie, ou WIC). "Há uma evidência de ligação entre ele e o pintor e arquiteto Jacob van Campen, especialmente quando se consideram os nus femininos de Eckhout, composições um tanto italianizadas." O conde alemão, o arquiteto de Maurithuis, o palácio de Nassau em Haia, foi possivelmente o homem que apresentou o pintor ao futuro governador do Brasil holandês.

O irmão de Frans Post, também arquiteto, trabalhou com Van Campen e pode ter indicado Eckhout, mas a historiadora fica mesmo com a primeira hipótese. E tudo levar a crer, diz ela, que ele deixou o Brasil com Nassau em 22 de maio de 1644, quando os holandeses foram derrotados.

Nassau levou 26 pinturas de Eckhout na bagagem. Duas se perderam - talvez num incêndio: um retrato de Nassau em tamanho natural e um autorretrato de Eckhout entre os nativos, o que teria permitido conhecer pelo menos o rosto desse pintor de biografia desconhecida. Sabe-se que, ao voltar à Europa, ainda serviu Nassau por nove anos, até 1653, estabelecendo-se depois em Dresden. Nassau ofereceu 9 retratos etnográficos de Eckhout ao gabinete de arte de seu primo Frederico III, rei da Dinamarca, onde permanecem até hoje (no Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague). D. Pedro II, em visita ao país, em 1876, tentou comprá-las, mas, sem sucesso na negociação, encomendou cópias de dimensões menores ao pintor Niels Aagaard Lutzen.

A autora do livro, elogiando o estilo naturalista do pintor, diz que ele ajudou os europeus a ver o habitante do Novo Mundo de uma nova maneira, ao trocar os traços caucasianos que outros pintores viajantes imprimiram aos indígenas por um retrato mais realista. Mesmo ao registrar animais, embora tenha cedido ao exótico, os desenhos e esboços estudados pela historiadora trazem, segundo ela, informações precisas sobre os espécimes.

Se as imagens de Eckhout são confiáveis ou não do ponto de vista etnográfico, essa é uma outra história, mas o certo é que elas foram fundamentais para o entendimento da alteridade, para o processo de assimilação do antípoda pelo europeu. A historiadora lembra que dezenas de pintores - o flamengo Jan van Kessel, entre eles - reproduziram seus retratos de índios brasileiros. Bons retratos, segundo a autora.

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