Obra traça perfil da nova mulher

A Academia Brasileira de Letras (ABL) lança nesta quinta-feira, às 17 horas, o livro A Mulher no Terceiro Milênio. Com coordenação de Ruth Niskier, ex-presidente do Comitê Cultural Feminino e mulher do acadêmico Arnaldo Niskier, a obra aborda as transformações da mulher na ótica de diversas pesquisadoras, que partiram de suas próprias trajetórias para esboçar o perfil da brasileira na virada do milênio. A publicação é resultado do segundo Ciclo de Palestras do comitê, evento que lotou as sessões na Academia no ano passado.O comitê feminino nasceu em março de 1998 por iniciativa de Ruth, na gestão de seu marido à frente da ABL. Pela primeira vez, o papel da mulher foi discutido com tamanha importância na casa. Num primeiro ciclo, as palestras sobre o tema ficaram restritas aos acadêmicos, resultando no ano passado na publicação A Mulher na Sociedade Contemporânea. Dessa vez foram convidadas mulheres expoentes em suas áreas de atuação: Rosiska Darcy de Oliveira, ex-presidente do Conselho Nacional de Direitos da Mulher; Maria Silvia Marques, diretora-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional; a médica Mariana Jacob; a ex-ministra Cláudia Costin; a arqueóloga Maria Beltrão; a coreógrafa e bailarina do Teatro Municipal do Rio Dalal Achcar; e a socióloga e sexóloga Maria Helena Matarazzo.O eterno conflito entre o feminismo e a feminilidade é tratado por Rosiska de Oliveira a partir de um histórico da mulher desde o início de movimentos sociais, na década de 50, até hoje. A "trajetória do feminino", segundo ela, remonta a uma história de luta, que se intensifica com a dupla jornada de trabalho e a violência a que a mulher é submetida. "Uma em quatro das famílias brasileiras é sustentada por uma mulher, com um único salário, sem companheiro; elas têm, de fato, uma vida muito dura", diz.A relação da mulher com seu corpo e sua diferenciação do masculino foram tratados pela médica geriatra Mariana Jacob. Com base nas pesquisas científicas deste século, ela rebate o conceito de "sexo frágil" associado ao feminino. Não há, no entanto, uma preocupação em enaltecer ou menosprezar o corpo feminino, mas de observá-lo como humano, com suas características biológicas próprias. Mariana informa que as mulheres são entre 10% e 15 % mais baixas que homens, 20 % mais leves e 30% menos fortes, especialmente na parte superior do corpo. Mas, ainda assim, são mais resistentes à fadiga. Ela explica ainda que a depressão e a variação de humor são realmente mais comuns em mulheres pelo baixo nível de serotonina produzido pelo cérebro, o que não as impede de realizar com mais eficiência trabalhos que exijam equilíbrio emocional.A paulista Claudia Costin, Secretária Nacional de Administração e Patrimônio do Governo, expandiu o tema para uma análise da situação do País que contou com participação do acadêmico e sociólogo Celso Furtado. Ela identifica na mulher uma forma particular de lidar com o poder, com os sonhos e com a construção de uma realidade. O tema é retomado pela professora Maria Silvia Bastos Marques, que relata seu papel na privatização da siderúrgica , sua experiência na negociação da dívida externa e sua saída do Governo na época do impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Para ela, esta "nova" mulher não deve se sentir culpada pelas responsabilidades adquiridas fora do lar. "A gente não tem que sentir culpa de nada", enfatiza.A arqueóloga Maria Beltrão analisou a história da brasileira e do sua próprio percurso como cientista. Citando suas pesquisas na região da Chapada da Diamantina, ela questiona modelos culturais fixos. "Não há essa divisão de trabalho, como se pode, às vezes, encontrar em uma tribo determinada, em certo lugar do mundo. Não quer dizer que sempre a mulher ficou em casa cuidando do bebê e fazendo comida. Há casos e casos. Já houve matriarcado, patriarcado, etc."Dalal Achcar vai além e critica a incipiente produção cultural nacional comparada ao resto do mundo. Por fim, a sexóloga Maria Helena Matarazzo trata do tema mais recorrente quando se fala de mulher: o amor. A partir de sua experiência de consultório, ela fala das relações amorosas, traições e de como sua geração se casava "no escuro", sem saber o que lhes aguardava. A essa mulher de hoje, não cabe mais o papel de esperar pelo grande amor, ao menos, não por uma idealização. "É como se o amor fosse real, só quando é explosivo, obsessivo, quando nos absorve totalmente.(...) O amor, como todas as outras coisas deve encaixar-se na vida", relata. "E em geral, ela é cheia de problemas e obrigações."

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