Obra revê pioneirismo do ilustrador Angelo Agostini

Parece a eterna disputa de pioneirismo entre Santos Dumont e os irmãos Wright. Muito antes de a imprensa popular americana (os impérios de gente como William Randolph Hearst) popularizar os comics como uma invenção gringa, um solitário ilustrador ítalo-brasileiro fez sucesso com histórias ilustradas em revistas do País. Seu nome: Angelo Agostini.A contribuição de Agostini para o desenvolvimento do que hoje chamamos de histórias em quadrinhos é inestimável, mas só agora ele ganha um trabalho de levantamento de sua obra de porte. Trata-se de As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora - Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros (1869-1883), um dos mais minuciosos trabalhos sobre a arte de Angelo Agostini jamais realizado. A pesquisa é de Athos Eichler Cardoso e o trabalho foi editado pela gráfica do Senado, em Brasília.Como Dumont e os irmãos Wright, o nosso brasileiro foi um flâneur dos céus, mais preocupado em ganhar o paraíso artístico do que com a pose histórica. Assim, destacam-se na hierarquia pioneirística os nomes do suíço Rodolphe Topffer e do alemão Willhem Busch, entre os primeiros a fazer histórias ilustradas.Segundo Álvaro de Moya, professor da disciplina de Quadrinhos e Televisão das Faculdades Integradas Anhembi-Morumbi (Fiam), em São Paulo, a grande diferença entre Agostini e seus contemporâneos, como o alemão Willem Busch e o inglês Stanley Ross, é que o primeiro era mais avançado, tinha uma pesquisa de linguagem mais sofisticada.O pioneirismo dos comics propriamente ditos é creditada ao americano Richard F. Outcault, com Menino Amarelo (Yellow Kid) a primeira tira a integrar texto e ilustração, com uso de balões. "A linguagem é que define a diferença, além da questão da massificação por meio da imprensa popular americana", diz Moya.As imagens dessa edição sobre o trabalho de Agostini foram digitalizadas diretamente dos originais das coleções das revistas de época Vida Fluminense, O Malho (que pertencem à biblioteca da Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro) e Don Quixote (pertencente à coleção privada de Magdala Machado, de Brasília). A qualidade da edição é espantosa, apesar de o editor alertar para alguns problemas de conservação dos originais que influem no resultado.O senador Lúcio Alcântara, que se responsabilizou pela edição perante a Gráfica do Senado, destaca a permanência da linguagem das histórias em quadrinhos, malgrado o avanço da TV e dos jogos eletrônicos. "Agora, Nhô-Quim e Zé Caipora, o primeiro pelo pioneirismo e o segundo pelo inusitado do desenho e da temática terão a oportunidade de serem comparados com o Menino Amarelo e outros personagens de quadrinhos famosos do repertório universal."O estudioso da caricatura Herman Lima comparou Angelo Agostini a Rugendas. Parece desproporcional a comparação, mas se se examina com atenção o livro o leitor vai notar que o cenário de uma nação em formação (elemento caro às paisagens de Rugendas) também é um dado fundamental da obra de Agostini.Agostini também inovou na linguagem e nos recursos tipicamente quadrinhísticos. Na aventura A Salvação de Inaiá, um quadrinho da página 149 mostra um homem pendurado num penhasco. Mas o que o leitor vê são apenas as pernas do homem, que parece pendurado no fio superior do desenho. Todo o resto ele é levado a imaginar, pela seqüência de quadros desenhados pelo autor.Zé Caipora é um personagem que precede o Jeca, Pedro Malazartes, Macunaíma e outros famosos da galeria de ladinos brasileiros. Seu tipo físico é do caboclo de pés descalços, barriga um tanto proeminente e notável adaptação às situações mais escabrosas.Um grande senso de movimento, muito chiaro-scuro e domínio completo das técnicas mais refinadas da pintura erudita européia completa o fascínio de Agostini. No episódio A Festa na Fazenda, feito em quadros grandes, mostra-se um baile bizarro, com quedas no salão e mulheres gordas e descabeladas indo ao chão. Um traço altamente moderno.Nhô-Quim é um anarquista por vocação, um personagem de vocação nacionalista, criador de encrencas, vivendo à margem da corte, mas não à margem das elites de uma época. Desajustado da vida cortesão, mete-se em confusões prosaicas, em ritmo de Commedia dell?Arte, como ressalta o pesquisador Eichler.Toda a mitologia do sertão brasileiro comparece nas páginas de Agostini. Índios e cobras gigantescas, onças e tamanduás-bandeira. Na história O Sonho do Zé, ele recorre a uma espécie de pintura rupestre para ilustrar uma seqüência de acontecimentos oníricos na vida do personagem.Também há referências a lendas populares, como ele explora no episódio A Moret e o Cacique dos Itambaruris. Seus títulos são jocosos. "Da influência de uma mulher escamada sobre o destino de um homem pacato." Ou então: "Onde o pobre Zé não dá 10 réis pela sua pele."A Narração de Iaiá reformula, com elementos da Mata Atlântica brasileira, cenas clássicas da Divina Comédia de Dante, com trechos inteiros ilustrados à moda de Gustave Doré.A condição de "nato in Itália" de Agostini levou os organizadores a procurar o embaixador da Itália, Michelangelo Jacobucci, e pedir-lhe seu apoio ao trabalho. O diplomata parece ter se deliciado com a obra do conterrâneo (que nasceu no Piemonte e cresceu e formou-se no Brasil), destacando a "suave ironia" do artista.Muito bem cuidada, a edição do Senado traz ao final um glossário com termos de época usados nas aventuras narradas por Agostini. Senão, seria um trabalho insano descobrir o que é espórtula (gorjeta), faisandê (carne apodrecendo), turumbamba (briga) ou Estadão (luxo).Mas a edição traz também alguns deslizes. Um deles é o texto da contracapa, que diz que Agostini foi o primeiro a fazer um desenho genuinamente brasileiro, sem influência de fora. Balela. Agostini cita explicitamente Doré numa série de cenas e também é tremendamente influenciado pela tradição cartazista do vaudeville francês.

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