Obra retrata apogeu e declínio do ativismo feminino durante a Revolução Francesa

Revoltadas com a falta de alimentos e direitos, forçaram Luis XVI a deixar Palácio de Versalhes e a governar de Paris

Elias Thomé Saliba , Especial para O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2014 | 20h11

"Cidadão: substantivo masculino; título concedido às mulheres, crianças pequenas e criados domésticos apenas por serem membros da família do cidadão propriamente dito, mas não por serem verdadeiramente cidadãos." Assim, a Encyclopédie, bíblia dos filósofos iluministas no século 18, definia o verbete referente à cidadania. Nada a estranhar na definição, certamente escrita pelo próprio Diderot: o iluminismo possuía uma visão masculina da cidadania e, de certo modo, inspirou os líderes da Revolução Francesa nos projetos de reformar o Estado, acabar com os privilégios e injustiças, reformar as leis e, sobretudo, promover o reerguimento da moral da nação. Rousseau foi o outro inspirador deste processo de regeneração moral, pois atribuiu parte da corrupção reinante aos salões aristocráticos liderados por mulheres, condicionando a restauração das virtudes cívicas ao retorno das mulheres para a esfera privada do lar, da maternidade e da família.

Nenhum dos dois filósofos sobreviveu para imaginar que, em 5 de outubro de 1789, uma multidão de sete mil mulheres enraivecidas, marchariam em direção a Versalhes, forçando o rei e o governo a voltarem para Paris. "Os homens tomaram a Bastilha, mas as mulheres tomaram o rei", escreveu o entusiasmado Jules Michelet. O que aconteceu de extraordinário foi que as mulheres do povo passaram a falar a linguagem dos direitos do homem. Em sequência, os anos de 1792-1793 marcaram o auge da influência política das mulheres das classes populares, pois coincidiram com o período no qual as instituições foram cada vez mais lideradas pelos jacobinos. Elas alcançaram uma efêmera vitória em setembro de 1792, com as leis que secularizaram o matrimônio e estabeleceram o divórcio, as quais seriam, poucos anos depois, sumariamente revogadas.

Entremeado por uma dezena de fascinantes imagens de época, este é o cenário desenhado por Tania Machado Morin em Virtuosas e Perigosas: As Mulheres na Revolução Francesa – uma pesquisa originalíssima e uma narrativa trepidante do apogeu e declínio do ativismo feminino durante a Revolução. Com boa dose de empatia, sempre atenuada com a visão objetiva das fontes, a autora revê trajetórias, episódios e imagens até então perdidas nos desvãos da história. Reaparecem mesmo algumas esquecidas heroínas da revolução – e esquecidas não porque não foram heroínas e sim porque foram mulheres. Como Olympe de Gouges, que desafiou o silêncio da Constituição de 1791, enunciando uma atrevida Declaração dos Direitos da Mulher e da cidadã: "A mulher tem o direito de subir ao cadafalso: tem que ter igualmente o direito de subir à tribuna" –, escreveu. Ou como Théroigne de Méricourt, que não só reivindicou o direito ao porte de armas para as mulheres, como participou de espada na mão no ataque às Tulherias em 1792.

A segunda parte do livro brinda o leitor com um contraponto criativo: se a Revolução foi algo essencialmente masculino, nas suas imagens as mulheres dominaram por completo. E isto não apenas porque os substantivos abstratos designativos eram todas femininos: Liberdade, República, Nação, Pátria. A iconografia encomendada pelos governos revolucionários valeu-se contudo daquele conselho de Rousseau, pregando uma pedagogia da regeneração moral. Neste caso, as alegorias iconográficas voltou-se para modelos do passado republicano: as matronas romanas, as mães espartanas ou rostos virginais representavam valores eternos e austeros da República. O grande paradoxo: enquanto as mulheres de carne e osso eram excluídas da vida pública, as deusas eram exaltadas, sobretudo porque eram abstratas, estavam acima das turbulências revolucionárias –, além do mais não votavam, não faziam petições nem protestavam nas ruas.

Os exemplos são muitos. Inspirada na deusa grega Deméter, a alegoria Natureza, de 1794, mostra uma figura majestática amamentando duas crianças de etnias diferentes. Alude tanto ao poder regenerador do aleitamento materno quanto à abolição da escravidão naquele mesmo ano: na ordem natural, brancos e negros são irmãos, o que os separa é a civilização. Já no contrafluxo desta iconografia quase oficial, lá estavam as caricaturas satíricas, quase sempre contrarrevolucionárias, em sua maioria detratando as mulheres, mas muitas delas mostrando conflitos e ambiguidades. Como na gravura Grande Debandada do Exército Constitucional, de 1792, que satiriza a apresentação de um destacamento feminino contra as tropas austríacas. O gesto de exibir os derrières era um insulto carnavalesco comum entre os franceses, mas a sugestão é pouco sutil: todas as mulheres perdem a virtude quando participam da vida pública, tornando-se atrevidas, despudoradas e ameaçadoras. É este processo eficiente e quase subliminar de diabolizar a mulher na esfera pública que vai se desdobrar em inúmeras imagens.

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Muitos historiadores julgaram negativamente o legado destes efêmeros eventos de cidadania feminina, que marcaram os seis primeiros anos da revolução, e acabaram desaparecendo do mapa da história – pelo menos até a eclosão dos movimentos feministas do século 20. Interpretações não destituídas de um certo anacronismo, já que o próprio termo feminismo, provavelmente criado por Charles Fourier, já no século 19, nem sequer era conhecido naquela época. O magnífico livro de Tania Morin, mostra que, ao contrário, por mais misóginas que fossem quaisquer políticas públicas, elas tinham que forçosamente considerar as mulheres como barômetros das crises sociais. Afinal elas apostaram num mundo melhor, lutaram por ele e ainda podem servir de inspiração longínqua para novas gerações.

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO

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