Obra resgata laços Brasil-Portugal

Para a maioria dos brasileiros, afirma o crítico literário português Eduardo Lourenço, não com o objetivo de provocar polêmica, mas para afastar de si qualquer ilusão, Portugal não passa de uma tênue silhueta. "Contam-se pelos dedos de uma só mão os portugueses que sabem até que ponto o Brasil é um país para o qual a antiga ´mãe-pátria´, Portugal, não passa de um ponto vago no mapa, o da Europa", escreve. Nós brasileiros vemos Portugal, muitas vezes, como aquele avô bondoso a quem visitamos nas datas nobres, mas cujo passado e potência ignoramos por completo. Acontece que esse escandaloso esquecimento de um laço fundador da realidade brasileira, Lourenço continua sem medo, seria, no fim das contas, correto. "Quem tem razão, à sua maneira, são os brasileiros", ele diz, "mesmo que o não façam por motivos justos".Os complexos laços que unem - e, paradoxalmente, afastam - brasileiros e portugueses são o tema central de A Nau de Ícaro (Companhia das Letras, 224 págs., R$ 26,00), coletânea de 20 ensaios de Eduardo Lourenço, de 78 anos, um crítico literário de formação pluralista, que navega por territórios como a filosofia, a literatura e a história. A rasura de nossa origem portuguesa e a correlata imagem mítica que os portugueses insistem em conservar a nosso respeito compõem as páginas mais inquietantes de seu livro.Lourenço acredita que nós, brasileiros, habitamos uma psicologia que se situa além do parricídio - pois crê que, em vez de matar o pai português, como fizeram os hispano-americanos em relação à Espanha, nós o recalcamos. Brasileiros filhos de si mesmos, procuramos nossas origens para além do passado colonial, o que é uma forma mascarada de negá-lo. Por isso mesmo, ele pensa, somos o país do carnaval, quer dizer, das máscaras, das fantasias, das alegorias e dos travestis. "Se o brasileiro tivesse que atribuir-se um pai, não seria nunca o português, mas o índio", o crítico imagina. Ocorre, lembra ele, que os índios brasileiros não foram colonizados, mas dizimados. Os portugueses do Brasil (que já se consideravam brasileiros) foram, acrescenta, os agentes desse genocídio, tragédia recalcada tanto por portugueses como por brasileiros. Em seu lugar, para ambos, ficou um vazio. Nós, brasileiros, o preenchemos, Lourenço crê, fixando o olhar apenas no presente, como se vivêssemos numa espécie de presente eterno; os portugueses suturam esse vazio com o mito do grande filho, o Brasil, é claro. "Para o discurso cultural português, o Brasil existe superlativamente, mesmo que essa existência seja quase sempre mítica", ele diz. Daí a verdadeira obsessão portuguesa pela lusofonia, questão que não interessa, em geral, aos brasileiros. "Abrasileirando" seu passado, vendo-se como filho de si mesmo, o Brasil escamoteia suas origens. Exagerando o seu, Portugal foge do presente e se alimenta da saudade.Rótulo - É "para conseguirmos sair da galáxia do ressentimento e do delírio", tanto portugueses como Lourenço, quanto nós brasileiros, que o crítico se dedica a pensar esses temas espinhosos. Pensá-los para aproximar, e não para afastar. Para assim desfazer a teia imaginária que se acoberta sob o rótulo de "relações culturais luso-brasileiras", quando somos, numa adaptação do dizer de Bernard Shaw, "dois povos separados pela mesma língua".A queda de Ícaro, que lhe dá o título da coletânea, é o nome de uma das mais famosas telas de Breughel, o Velho, hoje guardada no Museu Real de Bruxelas. Nela, Ícaro, o símbolo da ambição humana, mergulha no mar em meio à indiferença de tudo o que o envolve, "homens concentrados no seu trabalho, baía serena com algumas barcas, natureza adormecida como num sonho que acabaria melhor do que o de Ícaro". Mas o que interessa a Lourenço está num detalhe: no alto dos mastros, quase apagadas na tela de Breughel, tremulam duas bandeiras com as armas de Portugal. Meio milênio depois de Breughel pintar seu Ícaro, Lourenço medita, Portugal e suas naus retornam enfim à Europa - agora em vias da unificação. Nas últimas décadas, mais de um milhão de portugueses, além disso, emigraram para os países centrais europeus, completando esse movimento para dentro, ficando agora o mar imenso (e o Brasil) para trás.É esse país que, depois de lançar-se ao mar agora se volta para o interior, que produz uma cultura descentrada - cujo símbolo maior é a poesia fragmentada e sem pátria de Fernando Pessoa. O português é um povo dominado pelo sentimento da saudade, um "povo-saudade", como define Lourenço, fato "que obscurece a nossa atualidade de povo do século 20". Lourenço vê Portugal e sua cultura ainda hoje retidos numa "sobrecarga de sonho, que o impede de aderir à realidade". Esse excesso de memória mitificada, similar ao albatroz de Baudelaire, transforma Lisboa, salvo Praga, "na cidade mais naturalmente onírica da Europa". Sonho que, em vez de expandir os horizontes portugueses, ele pensa, os encolhe. Eduardo Lourenço é, enfim, tão duro com os brasileiros, quanto com o português que é. Rigor que, por certo, define o fundamento da crítica.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.