Obra relata vivência de J. D. Salinger na Segunda Guerra

Dos 3.100 soldados que desembarcaram com ele no Dia D, 2.500 morreriam naquele mês

André de Leones - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2014 | 20h00

Algumas das passagens mais impressionantes de Salinger, de David Shields e Shane Salerno, dizem respeito ao que o biografado vivenciou na Segunda Guerra Mundial. J. D. Salinger desembarcou na praia Utah, no Dia D (06 de junho de 1944), com o 12.º Regimento de Infantaria, que contava então com cerca de 3.100 soldados. Destes, 2.500 morreriam até o final daquele mesmo mês.

Trabalhando no Corpo de Contrainformação, ele ainda atravessaria o inferno da batalha na floresta de Hürtgen, na fronteira da Bélgica com a Alemanha, e suportaria, a um passo da exaustão completa e da loucura, a sanguinária contraofensiva alemã na região montanhosa das Ardenas, entre a Bélgica, Luxemburgo e a França, num evento também conhecido como a Batalha do Bulge.

 

 

Segundo Alex Kershaw, citado na biografia, nas Ardenas ocorreu “a culminação brutal da experiência de combate de J. D. Salinger no teatro europeu”, quando ele “se viu cercado por um imenso volume de sofrimento e aniquilação humana. É impossível acreditar que ele não tenha sido modificado fundamentalmente e de formas irreconhecíveis”. 

A culminação, contudo, parece ter sido um pouco depois, quando Salinger e seu regimento entraram no campo de extermínio Kaufering IV, na Alemanha: “Em muitos sentidos, Salinger nunca saiu dali”. Para Robert Abzug, chegar ao lager e se deparar com pilhas de cadáveres em combustão foi algo “como destapar um cemitério e cair dentro dele”. Nas palavras do próprio Salinger: “Por mais que você viva, realmente não consegue tirar o cheiro de carne queimada do nariz”.

Muito em função do que vira em Kaufering, Salinger sofreria um colapso nervoso e seria hospitalizado em Nuremberg. Kershaw afirma que “no maior triunfo de Salinger (a libertação do campo) está a maior tragédia”, pois é justamente o “capítulo final, de purificação da alma”, que se revela “o mais destruidor das almas”. De fato, segundo Eberhard Alsen, “o que destruiu Salinger foi o Kaufering Lager IV”.

Nos anos subsequentes, a ironia devastadora será que “apenas voltando em termos emocionais e imaginativos” à guerra é que Salinger conseguiria “avançar artisticamente”. É verdade, portanto, que ele jamais se libertou daquele cheiro de carne queimada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.