Jodi Hilton/The New York Times
Jodi Hilton/The New York Times

Obra reconstitui o universo de poemas e canções da França do século 18

Textos captavam a profunda indignação de antes da revolução

Elias Thomé Saliba , Especial para O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2014 | 19h56

Historiadores são parecidos com detetives: farejam pistas, seguem fios condutores e montam um caso a partir de indícios e fragmentos. A única diferença é que o historiador não pode ouvir testemunhas que já morreram, a não ser quando esbarra com inquéritos feitos no passado por outras competentes investigações policiais. Este é o grande feito de Robert Darnton em Poesia e Polícia: Redes de Comunicação na Paris do Século XVIII uma original reconstituição do universo de poemas e canções populares que circularam algumas décadas antes da Revolução Francesa.

O ponto de partida de Darnton é uma abrangente operação policial desencadeada no ano de 1749 contra os autores de seis poemas satíricos que atacavam o rei Luis XV. A operação conseguiu jogar na Bastilha os 14 supostos autores dos poemas, que eram estudantes, advogados, padres e professores, todos jovens, os quais apenas foram flagrados repassando os papéis nos quais estavam garatujados os poemas. A partir daí, o leitor pode acompanhar o historiador numa arguta perseguição às intrincadas origens dos poemas.

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Surpreendentemente, a maioria das anedotas que forneceram munição aos poemas populares, nasceram dentro da própria corte de Versailles, de um sem-número de intrigas e futricas, relacionadas com a demissão de um ministro - o conde de Maurepas - o qual, enraivecido, depois de servir ao governo por 36 anos, se tornou um colecionador de poemas escabrosos que ajudou a espalhar por todo o país. Um dos principais alvos era Mme. de Pompadour, uma das amantes do rei Luis XV. Quando ela subiu na hierarquia da corte, Maurepas já havia disparado uma série de poemas do tipo habitual, recolhidos das ruas, a maioria deles fazendo trocadilho com o nome de solteira de Pompadour, Poisson (peixe), fonte de infinitas paródias e sátiras obscenas. A mais comum era dizer que "até a Corte cheirava ao mercado de peixe".

Eram versos simples, alguns violentos, que expressavam a impotência do povo em face daqueles anos particularmente difíceis: impostos elevados e um sentimento de humilhação nacional na conclusão da malograda Guerra da Sucessão Austríaca (1740- 1748). Para complicar as coisas, Luis XV havia criado um novo imposto extraordinário a vingtieme (que duraria 20 anos). A imagem do rei corrupto, cercado de amantes, meretrizes e ministros incompetentes, servia apenas de elemento catalisador da profunda indignação popular. Copiados em tiras de papel, ditados de uma pessoa a outra, declamados em tavernas e cafés, os poemas acabaram alcançando uma divulgação maciça quando começaram a ser cantados com melodias conhecidas. A versificação era tão simples que qualquer um podia encaixar um novo par de rimas à antiga melodia e transmiti-la a outras pessoas, cantando-a ou escrevendo-a.

Difícil saber como a música influenciava o significado das palavras -, mas, é preciso lembrar como melodias conhecidas servem, até hoje, de recursos mnemônicos. Palavras associadas a uma melodia se fixam na memória e são fáceis de comunicar a outras pessoas quando cantadas. Quando uma letra nova é cantada numa melodia já familiar, as palavras transmitem associações que foram agregadas às versões anteriores das canções. Portanto, canções podem, por assim dizer, funcionar com um palimpsesto auditivo para o pesquisador. A partir daí, a divulgação adquiriu um traço muito semelhante às atuais redes virais na internet, justificando literalmente, a jocosa definição de Chamfort: "A França era uma monarquia absoluta temperada por canções".

Rastreando as chaves dos poemas nos livros dos chansonniers da época, Darnton ainda conseguiu reconstituir em áudio o repertório de algumas destas canções. Com a colaboração da cantora Helène Delavault e de alguns músicos que procuram emular violinos, realejos, gaitas de fole e rabecões da época, o leitor pode se deliciar ouvindo as canções de mais de 250 anos atrás, no "cabaré eletrônico" criado pelo autor no site www.hup.harvard.edu/features/darpoe.

Apesar de subversivas no conteúdo, quase todas paródicas e licenciosas, as canções ainda se apoiavam tanto nas convenções retóricas quanto nos cânones musicais ensinados à elite educada por meio dos clássicos. O que provoca uma sensação de estranheza, que o leitor pode conferir: imaginem a mais popular das canções da época Que Uma Prostituta Bastarda ("Qu’une bâtarde de catin") entoada com todo o decoro musical da época pela voz de meio-soprano de Helene Delavault!

Embora parciais, as revelações de Darnton alteram completamente a definição daquilo que os filósofos iluministas louvaram como a "opinião pública". Longe de um processo filosófico que agia de forma persuasiva e pacífica na direção de um aprimoramento da humanidade, a opinião pública era uma força incontrolável que jorrava das ruas, varrendo tudo que estivesse pela frente, inclusive os filósofos - e sem a menor consideração com as tentativas deles para construí-la ou mantê-la sob controle.

Rastilho. A multidão que lia poemas escabrosos e cantava canções piadistas constituía um grupo caótico de gente apaixonada que superava sua impotência - inclusive no domínio da palavra - com humor e divertimento. As canções tornaram-se parte de cultura política ruidosa e apaixonada - não imediatamente reconhecível nos livros ou nas ideias iluministas -, pronta para voltar-se contra qualquer tipo de poder ou bode expiatório - o que aparecesse primeiro. Não importava se o mundo monárquico fosse mais complexo nem que as anedotas fossem verdadeiras, tudo era simplificado e servia de rastilho para a combustão, formando uma malta de pândegos enraivecidos, que não tinha nada a perder e pronta para entrar em ebulição.

Em meados do século 18, Paris não estava pronta para a revolução - que viria apenas 40 anos depois -, mas havia desenvolvido um sistema oral de comunicação altamente eficaz, que informava os acontecimentos ao público e fornecia comentários jocosos a seu respeito. A percepção popular foi muito mais profunda porque veio embalada por canções e piadas inesquecíveis, perpetuadas numa tradição popular completamente ausente dos jornais e das bibliotecas.

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE RAÍZES DO RISO

POESIA E POLÍCIA: REDES DE COMUNICAÇÃO NA PARIS DO SÉCULO XVIII

Autor: Robert Darnton.

Trad.: Rubens Figueiredo.

Editora: Companhia das Letras (233 págs., R$ 39,50).

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