Obra-Prima sem nada que a precedesse

Na edição de estreia, o crítico Antonio Candido reagiu assim ao analisar Grande Sertão:Veredas, de João Guimarães Rosa

, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

"Este romance é uma das obras mais importantes da literatura brasileira - jacto de força e beleza numa novelistica algo perplexa como é atualmente a nossa. Não segue modelos, não tem precedentes; nem mesmo, talvez, nos livros anteriores do autor, que (...) não apresentam a sua característica fundamental: transcendencia do regional (cuja riqueza peculiar se mantém todavia intacta) graças à incorporação em valores universais de humanidade e tensão criadora.

É uma história de jagunços do Norte de Minas na forma do monologo ininterrupto (...) de um velho fazendeiro narrando como se tornou membro e afinal chefe de bando. As ações giram em torno da vingança contra companheiros felões que mataram á traição o grande chefe de todos (...). São a (...) estupenda visão do mundo e a inquietude interior elaboradas ao longo do seu fluxo de eloquencia e poesia.

Há no livro uma estratificação de interesses, combinados e organizados a cada passo pelo autor na trama expositiva - do pitoresco regional á preocupação moral e metafisica. Mundo diverso da ficção regionalistica, feita quase sempre "de fora para dentro" e revelando escritor simpatico, compreensivo, mas separado da realidade (...) do mundo que descreve; e que enxerta num contexto erudito elementos mais ou menos bem apreendidos da personalidade, costumes, linguagem do homem rustico, obtendo montagens, não a integração necessaria ao pleno efeito da obra de arte.

Em Grande Sertão: Veredas, o aproveitamento literario do material observado na vida sertaneja se dá "de dentro para fora", no espirito, mais que na forma. O autor inventa, como se (...) fundisse num grande bloco um idioma e situações artificiais, embora regidos por acontecimentos e principios expressionais potencialmente contidos no que se registrou e sentiu. Sob este aspecto (...), lembra os compositores que infundiram o espirito dos ritmos e melodias populares numa obra da mais requintada fatura (...).

Há motivo para invocar o universo da musica ao falarmos deste livro, não obstante tão acentuadamente plastico nas camadas externas. Em profundidade é governado, com efeito, por alguns temas que, uma vez apresentados , são desenvolvidos, recapitulados, variados, formando o verdadeiro fio condutor de tudo o que se expõe no piano da ação e da descrição, de modo a resultar a integridade quase obsessiva das diretrizes essenciais. Tema do Menino que se desdobra (...) no companheiro Diadorim (mulher disfarçada em jagunço, sabemos afinal) e decide a carreira do narrador, Riobaldo. Tema do amor como aspiração e porto inquietudes (...). Sobretudo, o tema do mal e de responsabilidade, encarnado na presença negada e sentida do Demonio - sem duvida o maior personagem do livro no plano transcendente, como é, no plano físico, o Sertão."

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