'Obra-Prima Sem Nada que a Precedesse'

'Grande Sertão: Veredas' de João Guimarães Rosa ganha resenha do crítico Antonio Candido em 1956

Antonio Candido,

12 de março de 2010 | 20h12

Este romance é uma das obras mais importantes da literatura brasileira - jacto de força e beleza numa novelistica algo perplexa como é atualmente a nossa. Não segue modelos, não tem precedentes; nem mesmo, talvez, nos livros anteriores do autor, que, embora de alta qualidade, não apresentam a sua característica fundamental: transcendencia do regional (cuja riqueza peculiar se mantém todavia intacta) graças á incorporação em valores universais de humanidade e tensão criadora.

 

É uma história de jagunços do Norte de Minas na forma do monologo ininterrupto, sem divisão ou capitulo, de um velho fazendeiro narrando como se tornou membro e afinal chefe de bando. As ações giram em torno da vingança contra companheiros felões que mataram á traição o grande chefe de todos; mas o miolo nutritivo é - não sei se diga a expressão ou a personalidade do narrador, a cujo amadurecimento presenciamos no correr do livro. São, em todo caso, a estupenda visão do mundo e a inquietude interior elaboradas ao longo do seu fluxo de eloquencia e poesia.

 

Há no livro uma estratificação de interesses, combinados e organizados a cada passo pelo autor na trama expositiva - do pitoresco regional á preocupação moral e metafisica. Mundo diverso da ficção regionalistica, feita quase sempre "de fora para dentro" e revelando escritor simpatico, compreensivo, mas separado da realidade essencial do mundo que descreve; e que enxerta num contexto erudito elementos mais ou menos bem apreendidos da personalidade, costumes, linguagem do homem rustico, obtendo montagens, não a integração necessaria ao pleno efeito da obra de arte.

 

Em Grande Sertão: Veredas, o aproveitamento literario do material observado na vida sertaneja se dá "de dentro para fora", no espirito, mais que na forma. O autor inventa, como se, havendo descoberto as leis mentais e sociais do mundo que descreve, fundisse num grande bloco um idioma e situações artificiais, embora regidos por acontecimentos e principios expressionais potencialmente contidos no que se registrou e sentiu. Sob este aspecto, ao mesmo tempo de anotação e construção, lembra os compositores que infundiram o espirito dos ritmos e melodias populares numa obra da mais requintada fatura, como Bela Bartók. Comparada a semelhante processo, literatura regionalista não ultrapassa a esfera do programa caipira.

 

Há motivo para invocar o universo da musica ao falarmos deste livro, não obstante tão acentuadamente plastico nas camadas externas. Em profundidade é governado, com efeito, por alguns temas que, uma vez apresentados , são desenvolvidos, recapitulados, variados, formando o verdadeiro fio condutor de tudo o que se expõe no piano da ação e da descrição, de modo a resultar a integridade quase obsessiva das diretrizes essenciais. Tema do Menino que se desdobra, como da predestinação, no companheiro Diadorim (mulher disfarçada em jagunço, sabemos afinal) e decide a carreira do narrador, Riobaldo. Tema do amor como aspiração e porto inquietudes, extremamente complexo nas suas três encarnações de pureza, de sensualidade e impulsos obscuros: a bem amada ("minha Otacilia, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença"); a meretriz ("era a que era clara, com os olhos tão dela mesma"); o amigo disfarçado ("aquele fino das feições que eu não podia divulgar, mas lembrava, referido, na fantasia da idéia"). Sobretudo, o tema do mal e de responsabilidade, encarnado na presença negada e sentida do Demonio - sem duvida o maior personagem do livro no plano transcendente, como é, no plano físico, o Sertão, onde o narrador busca as veredas da verdade: "uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver". Por estranho que pareça, esta narrativa sertaneja de experiencias profundas com Mundo, Diabo e Carne, é sobretudo um livro absorvido por certos problemas, sobretudo o da conduta, abordado de um angulo que existencialistas chamariam de "ser-no-mundo".

Para conter tanta riqueza plastica e emocional, Guimarães Rosa uniu pitoresco e essencial numa tecnica narrativa admiravel, maracada pelo vaivém, o parentese, a antecipação, a digressão, a retomada - que ampliam a nossa percepção em amplitude e profundidade - para desembocar na linha reta e palpitante da terça parte final, quando Riobaldo assume o destino nas mãos, disposto a aceitar o bem e o mal. Refinamento tecnico e força criadora fundem-se então numa unidade onde percebemos, emocionados, desses raros momentos em que a nossa realidade particular brasileira se transforma em substancia universal perdendo a sua expressão aquilo que, por exemplo, tinha de voluntariamente ingenuo na rapsodia dionisiaca de Macunaima, para adquirir a soberana maturidade das obras que fazem sentir o homem perene.

Nesta resenha foi mantida a ortografia da data de sua publicação: 6/10/1956

Grande Sertão: Veredas. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro 1956, 594 págs.

 

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