Obra-prima feita como ponte transcultural

O CD duplo Carta de Amor começa com o violão de Gismonti anunciando o tema da faixa-título, logo seguido pelo sax soprano de Jan Garbarek e só depois pelo baixo de Charlie Haden. É um tema lírico, como tantos outros que Gismonti compôs em quatro décadas de carreira, entre eles o tocante Palhaço (no segundo CD), traduzindo a conversa harmônica que o trio teve nesse show antológico que, por uma dessas razões inexplicáveis, ficou guardado por 30 anos nos arquivos da gravadora ECM.

O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2012 | 04h26

O magnetismo de Gismonti, contudo, é poderoso. Um dia, o produtor Manfred Eicher decidiu resgatar essas fitas do limbo fonográfico para mostrar às novas gerações de músicos como três instrumentistas e compositores resolveram, em comum acordo, tocar peças uns dos outros para entender o que significa a palavra alteridade. A sintaxe de três indivíduos, diferentes em tudo, não poderia ser mais semelhante. Tome-se como exemplo a segunda faixa do primeiro disco, La Pasionaria, criada para a Liberation Music Orchestra que Haden manteve com Carla Bley e que ressuscitou em 2005 - da formação original, dos anos 1970, fazia parte, entre outros, o argentino Gato Barbieri (autor da trilha de O Último Tango em Paris).

La Pasionaria é um tributo à rebelde republicana e líder comunista Dolores Ibárruri (1895-1989), que se tornou famosa ao desafiar as tropas do general Franco com a frase "Eles não passarão" e morreu no ano em que caiu o Muro de Berlim. Na gravação com Carla Bley, La Pasionaria vira, de fato, um grito de guerra. No show do trio Gismonti-Haden-Garbarek na Amerika Haus, a discussão ideológica é neutralizada com o entendimento entre os instrumentistas e o respeito ao fraseado do baixo de Haden, um homem de convicção ideológica que chegou a ser perseguido pelo FBI por sua militância anticolonialista e críticas ao apoio dos EUA às ditaduras latinas no passado.

Sem esforço aparente, Haden e Garbarek entram no mundo das pesquisas étnicas de Gismonti e tocam Cego Aderaldo como se entendessem, de fato, que o brasileiro está falando do caldeirão de culturas que é o Brasil, do cruzamento híbrido entre a tradição árabe (da qual Gismonti é legatário) e a linguagem melódica do Nordeste brasileiro. Há uma correspondência simétrica entre esse diálogo e o que o trio mantém na faixa seguinte, Folk Song, que Garbarek compôs tomando emprestado temas folclóricos da Noruega. No final, é o violão de Gismonti que serve de baliza nessa viagem transcultural em direção aos fiordes. "Somos um povo miscigenado, que não tem medo de outras culturas", resume Gismonti.

Outra prova dessa flexibilidade está na segunda faixa do segundo CD, All That Is Beautiful, de Charlie Haden, em que o piano de Gismonti transita no universo jazzístico do baixista sem, contudo, evocar a parceria do americano com o trio que Keith Jarrett manteve nos anos 1970. É um dos grandes momentos do show, embora o mais caloroso seja mesmo quando o sax de Garbarek toca logo depois as primeiras notas de Palhaço, seguindo o caminho apontado pelo piano de Gismonti.

Nos nove minutos de Palhaço, o entrosamento do trio é tão impressionante que, mesmo quando o compositor introduz uma variante na canção e começa a improvisar, ninguém precisa acenar com a bandeirinha para que se retome o tema principal. Ainda uma vez, antes do fim do show, o trio toca duas canções folclóricas com arranjos de Garbarek, curta e sincopada suíte. A peça de encerramento é uma variação de Carta de Amor. Uma mensagem desta vez mais grave. E apaixonada. / A.G.F.

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