Obra-prima de Stroheim é destaque hoje na TV

Uma legítima raridade vai cintilar às 22 horas de hoje no Telecine Classic, com reprise às 8h15 de amanhã. Não é todo ano que um Stroheim passa pela televisão brasileira. Ainda mais se tratando de A Marcha Nupcial, uma de suas obras-primas. É programa para se comemorar com champanhe, a bebida que rola à vontade numa das melhores cenas do filme, a da orgia no bordel. Os jorros de champanhe que cruzam à frente da câmera, enquanto a elite vienense de 1914 se esbalda entre prostitutas roliças, são uma entre as muitas metáforas sexuais que fizeram de A Marcha Nupcial um dos filmes mais ousados da Hollywood de seu tempo (1926). Em outra cena, a plebéia Mitzi (Fay Wray) morde os lábios ao acariciar com os olhos, de baixo a alto, o cano da bota e a espada do garboso Príncipe Nicki (Stroheim). O filme fala todo o tempo de "amor verdadeiro", mas o que se vê não são propriamente sentimentos. É pura pulsão erótica, irracionalismo e selvageria. Não era bem isso o que a Paramount esperava ao confiar a Erich von Stroheim uma produção suntuosa, que explorasse a visão romântica dos americanos sobre a nobreza européia. O ruidoso sucesso de A Viúva Alegre, em 1925, havia desagradado ao diretor, que considerava o filme "apenas uma encomenda de estúdio com final feliz". Mas as multidões adoraram e Hollywood, depois de muito expulsá-lo e mutilar seus filmes, uma vez mais o reabilitava. Stroheim empunhou o cetro de rei do realismo e partiu para fazer o que bem entendia. Esse filme nunca será visto por nenhum de nós. Stroheim foi destronado da produção depois de rodar mais de 12 horas de material. Visava a um programa de seis, com um intervalo para as senhoras recobrarem o fôlego. A primeira parte é o que veremos na TV, em versão reduzida pelo estúdio das três horas e meia originais para pouco menos de duas horas. É a história de dois casamentos forçados. Nicki apaixona-se por Mitzi, mas é obrigado por sua família arruinada a casar-se com Cecília, a filha de um industrial, moça triste e coxa. Mitzi, por sua vez, sacrifica-se para evitar uma tragédia, aceitando a união com um carniceiro odioso. Stroheim vingava-se de A Viúva Alegre com o fim mais infeliz que poderia conceber. Na segunda parte, remontada por Josef von Sternberg, o carniceiro Schani tentava matar Nicki, mas era Cecília quem morria em seu lugar. Mitzi entrava para um convento e recusava-se a esposar Nicki, embora continuasse a amá-lo. A 1.ª Guerra Mundial ceifava a vida de Schani e absorvia as dores do príncipe. Lua-de-Mel era o título irônico dessa continuação, cuja única cópia existente, ao que se sabe, foi destruída nos anos 50. Mesmo com todos esses contratempos, o que restou de A Marcha Nupcial merece todo o champanhe do mundo. Como o seu forte não era a montagem, Stroheim enchia os cenários de elementos simbólicos e extraía dos atores performances suculentas, que contrastavam com a sua atitude marcial. O filme está cheio de exemplos de sua crueldade na composição física das personagens. Os pais de Nicki são vistos pela primeira vez no despertar do dia de Corpus Christi, antes de camuflarem a fealdade e os baixos instintos na cosmética social.Schani parece influenciado pelos porcos com que lida no seu abatedouro. No primeiro encontro amoroso com Nicki, Mitzi porta muletas em virtude de um acidente. Sua deformidade, contudo, é passageira e, ao contrário do defeito de Cecília, não a exclui da órbita do desejo masculino. Em Esposas Ingênuas, já se verificava a mesma distinção entre a deficiência física temporária e benigna da mulher desejada (a bela americana) e a permanente da mulher rejeitada (a velha bruxa). Stroheim era um moralista de punhos sujos. A Marcha Nupcial conta uma luta entre a virtude (representada por Santo Estêvão, os crucifixos, a idéia de sacrifício, etc.) e o infortúnio (o Homem de Ferro, símbolo da culpa e da vilania do destino). O segundo vence às gargalhadas. Não há lugar para romantismo. A macieira em flor, cenário idílico de Nicki e Mitzi, converte-se em local de pecado e signo irônico de um ideal irrecuperável. A redenção do farrista Nicki pelo tal "amor verdadeiro" revela-se impraticável, pelo menos nessa primeira parte. Da mesma forma, não há espaço para deleites com a pompa vienense. As cerimônias são meras ocasiões para flertes erotizados ou vis maquinações. Personagens, ambientes, objetos - tudo é subvertido pelo duplo sentido. Nicki, o Príncipe Encantado, em seu esnobismo prussiano e falocrata, só no físico e nas maneiras, é menos repelente do que o açougueiro. Não há, por exemplo, como negar razão a Schani quando este acusa a nobreza de ser ociosa e viver à custa do povo. Nesse momento, Mitzi retruca com malícia e pragmatismo impróprios a uma heroína romântica: "Mas eles não são lindos?" Era assim que Stroheim invertia os sinais da máquina de sonhos, alimentando expectativas para destruí-las em seguida, sem dó nem piedade.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.