Obra-Prima de stevens tem versão de luxo

Filho do grande diretor comenta a edição especial de Um Lugar ao Sol

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2010 | 00h00

Seu pai, George Stevens, é considerado um dos maiores diretores da história de Hollywood - "an american legend". George Stevens Jr. conversa pelo telefone com o repórter. Está em Washington D.C., onde mora. O tema é Um Lugar ao Sol, que acaba de sair em DVD, numa edição de colecionador que inclui numerosos extras, entre eles, entrevistas com diretores que George Stevens Jr. fez para um documentário sobre seu pai.

Cineasta (e também dramaturgo), ele faz uma declaração que não deixa de ser surpreendente, considerando-se a fama de Um Lugar ao Sol como um dos grandes filmes de todos os tempos. "A matriz não estava muito boa. O estúdio (a Paramount) não vinha cuidando de A Place in the Sun. Tivemos que recuperar a matriz, reacertar a iluminação, limpar o som. Mas nada disso mexeu com a estrutura do filme. Não acrescentamos um plano a mais, nem diminuímos. Um Lugar ao Sol permanece a obra que George sonhou, e executou."

Tragédia. O romance de Theodore Dreiser que deu origem a Um Lugar ao Sol - Uma Tragédia Americana - é um clássico do realismo social das letras dos Estados Unidos. Era o filme que Sergei M. Eisenstein queria realizar, nos anos 1930, para discutir o destino individual no capitalismo. O projeto não se concretizou, Uma Tragédia Americana ganhou uma versão dirigida por Josef Von Sternberg que, raramente, é citada entre os grandes filmes do pigmalião de Marlene Dietrich. Em 1951, George Stevens voltou ao livro. Montgomery Clift faz o pobretão que se envolve com a rica herdeira Elizabeth Taylor. Estão para se casar, mas ele engravidou a garota pobre (Shelley Winters). Clift planeja o assassinato de Shelley. Há um acidente, ela morre. O caso vai a julgamento. Clift é condenado pelo crime de intenção.

A lendária crítica Pauline Kael ironizava o cristianismo de Stevens, dizendo que ele condenaria Dostoievski ao inferno, só porque o irmão Karamazov pensa em matar o pai. A polêmica acompanha o filme há quase 60 anos. Sua beleza trágica é insuperável. A cena do beijo, no baile, a sucessão de closes entre Clift e Liz Taylor até que os lábios se tocam, é um momento inesquecível de cinema. Charles Chaplin considerava Um Lugar ao Sol o maior filme feito, até então. Uma lenda é que George Stevens filmava tudo, qualquer plano, com várias posições da câmera, para depois decidir na montagem. "É mentira. Alguns planos ele filmava assim, mas nem todos", lembra Stevens Jr. Certa vez, ele cobrou do pai o longo processo de montagem - George Stevens ficava longos meses na sala de edição. "As pessoas vão dedicar duas horas a este filme durante quanto tempo? Não tem nada demais que eu procure fazê-lo da melhor forma possível."

Oscars. Stevens já pensava na posteridade? Um Lugar ao Sol é o primeiro episódio do que não deixa de ser uma trilogia e que se completa com Os Brutos Também Amam (Shane) e Assim Caminha a Humanidade (Giant). Ele realmente pensou os filmes como uma trilogia? "Não, essa é uma construção da crítica, mas ele realmente se preocupava em legar um testemunho social." A entrevista foi realizada na segunda-feira pós-Oscar, à tarde. Stevens ganhou duas vezes o Oscar de direção, por um Lugar ao Sol e Assim Caminha a Humanidade, mas nunca o de melhor filme. O fato o incomodava? "Ele nunca ligou para o prêmio. Nem poderia - quem é louco de achar que A Volta ao Mundo em 80 Dias seja melhor do que Giant, a ponto de ganhar o Oscar principal?"

O que Stevens Jr. pensa da obra de seu pai? "Não cabe a mim avaliá-la, mas a vocês, críticos, e ao público. Minha função é manter sua obra viva." Shane e Giant merecerão novas edições em DVD tão cuidadas? "Ambos já saíram em versões muito boas", ele avalia. O repórter cita Martin Scorsese. Em Berlim, Scorsese contou que as cenas do passado do personagem de Leonardo DiCaprio em Ilha do Medo - os flash-backs dos campos de concentração - lhe foram sugeridas pelo material que George Stevens filmou in loco, ao acompanhar o Exército dos EUA, na liberação da Europa. "É um material precioso", diz Stevens Jr., que o depositou na Biblioteca do Congresso dos EUA. "A obra do meu pai faz parte da história norte-americana, mas aquilo é parte da história da humanidade."

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