Obra hoje está quase invisível

Idealizados para a entrada da sede da ONU, os painéis - um presente do governo brasileiro à entidade - vivem, paradoxalmente, um período de quase invisibilidade. Desde os atentados terroristas de 11 de setembro, a segurança no prédio de Nova York foi intensificada a tal ponto que só quem possui crachá pode vê-los (não é possível avistá-los na visita guiada feita pelos turistas, por exemplo).

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Para desgosto de João Cândido Portinari, que ressalta o tremendo esforço que o pai fez para dar conta de seus 280 metros quadrados - são dois conjuntos de 14 telas, cada uma com 5 metros de largura por 2,20 de altura, preparados durante nove meses, como quadros de cavalete, para serem dispostos um em frente ao outro.

"Portinari fez 180 estudos, de 1952 a 1955, e, quando começou a pintar os painéis, num galpão em que fazia 45 graus, já havia sido avisado pelo médico que precisava se afastar das tintas, por causa da intoxicação", conta João, que à época era adolescente. Ele acompanhou a rotina de hemorragias internas, náuseas e depressão, consequente do envenenamento por cádmio, arsênio, e sobretudo, chumbo.

"Os trabalhosGuerra e Paz não foram um acidente, algo circunstancial. Foram um coroamento de toda uma vez de luta pela paz. Imagina o drama desse homem, diante da oportunidade da vida dele de falar sobre esses assuntos, e sabendo que estava usando tintas proibidas, que podia morrer."

No palco do Municipal. Em fevereiro de 56, pouco depois do carnaval e antes do embarque, de navio, para Nova York, Guerra e Paz foram exibidos ao público carioca dentro da sala de espetáculo, diante do palco, com a presença do então presidente, Juscelino Kubitschek, e de boa parte da intelectualidade brasileira. Nos dias seguintes, o povo fez fila para conhecê-los.

A consagração em solo pátrio foi seguida de uma tremenda frustração: a inauguração na ONU foi discretíssima, já que Portinari era filiado ao Partido Comunista desde 1946, o que nos Estados Unidos pegava muito mal (ele nem recebeu visto para participar da abertura).

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