Obra feita a dois

É concluída a transferência para a USP da Brasiliana que José fez, mas Guita consentiu

LAURA GREENHALGH - O Estado de S.Paulo,

10 Fevereiro 2013 | 13h46

A cena se repetiria com amigos e conhecidos, muitos deles ilustres, outros nem tanto, na agradável sala de estar da casa à rua Princesa Isabel, Brooklin Paulista, zona sul da cidade: o anfitrião se sentaria na poltrona defronte das estantes. Os convidados, num sofá posicionado de lado às mesmas prateleiras de livros. O dono da casa então aguardaria o primeiro movimento de pescoço dos visitantes. Não obstante a boa conversa em curso, eles acabariam por se contorcer no sofá para admirar a biblioteca, especialmente aquele segmento de obras raras, com suas lombadas de couro e inscrições douradas, sem falar na presença de dois formidáveis exemplares das primeiras edições de Os Lusíadas (1572). "A contemplação destes volumes pode causar torcicolo. Mas me incomodaria se o visitante os ignorasse", segredava o anfitrião, em tom maroto. Esta era apenas uma das múltiplas formas de José Mindlin (1914-2010), o maior bibliófilo brasileiro, manifestar sua paixão pelos livros. Outra poderá ser vista e conferida no câmpus da USP a partir do dia 23 de março, quando finalmente será aberta ao público a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM)- obra de toda uma vida, doada por seu criador a uma universidade pública, num gesto quase tão raro quanto os livros de suas estantes.

Fruto de uma doação ímpar neste País, a Biblioteca Brasiliana Mindlin (BBM), com seus 32 mil títulos e cerca de 60 mil volumes, acaba de ser transferida da casa da rua Princesa Isabel para um moderno edifício projetado pelo arquiteto Eduardo de Almeida, na Cidade Universitária. Assim se cumpriu a vontade de seu criador e proprietário, o ex-empresário, ex-secretário de Cultura e bibliófilo de renome internacional, José Mindlin (1914-2010): direcionar este que era o seu maior patrimônio, avaliado em torno de US$ 25 milhões segundo peritos, para o uso e o interesse públicos. Colecionador de obras raras desde a juventude, já no fim dos anos 1980 Mindlin se preocupava com o destino de uma biblioteca que crescera exponencialmente, tomando conta da casa da família, se expandindo para um anexo de três andares e já ocupando imóveis pela vizinhança. Mindlin se justificava dizendo que "ler é puro prazer". Tomar os livros nas mãos, uma compulsão. E colecioná-los, um vírus. Daí se declarava disposto a contagiar quem quer que fosse.

Alternativas para o vasto acervo passaram pela criação de uma fundação, a aquisição por alguma instituição privada ou a inevitável dispersão do conjunto nos pregões das grandes casas leiloeiras. Porém, já na casa dos 90 anos, Mindlin pôde comemorar sua decisão final: a doação da coleção Brasiliana, exatamente a parte mais valiosa da biblioteca, à universidade pública em que se formou (em Direito, no Largo de São Francisco), onde conheceu Guita, sua mulher e mãe de seus quatro filhos (Betty, Diana, Sérgio e Sonia), e onde criou laços intelectuais para toda a vida. "O gesto de meus pais é de retribuição ao país que acolheu os pais deles, imigrantes. Ambos estariam felicíssimos se pudessem ver este prédio sendo tomado pelos livros", comentou a antropóloga Betty Mindlin , primogênita do casal, em visita à nova sede com o Estado. Guita (1917- 2006), ao acompanhar o marido na aventura da bibliofilia, acabou por se tornar uma autoridade na preservação física de livros - "além de me dar a tranquilidade de não precisar entrar em casa com livros escondidos, pois foi ela quem muitas vezes me estimulou a fazer aquisições", lembrava Mindlin . Assim, também o laboratório e a biblioteca de restauro de dona Guita foram levados para a USP.

Hoje o prédio da BBM se destaca na paisagem do câmpus, enterrando de vez o único receio do doador - de que a construção da sede para sua coleção patinasse num limbo de entraves jurídicos, burocráticos e financeiros, sem sair da prancheta dos arquitetos, incluindo a de Rodrigo Mindlin Loeb, neto de Guita e José, e parceiro de Almeida no projeto. Havia cláusulas duras no termo de doação, assinado em 2006, contra eventuais atrasos na obra, o que de fato ocorreu especialmente na fase inicial dos trabalhos. Mas o fato é que a empreitada acabou ganhando fôlego na gestão do atual reitor, João Grandino Rodas. E pouco falta para acabar.

Antes, outros personagens ajudaram a construir o sonho de Mindlin , a começar do historiador István Jancsó, parceiro no Projeto Brasiliana USP, que promove a integração da Brasiliana Mindlin e da Brasiliana do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). Dentro de meses, a Brasiliana do IEB, com seus 140 mil volumes, vai ocupar a outra ala do novo prédio. Em que pesem sobreposições dos dois acervos, a soma perfaz o maior conjunto de obras voltadas à história e à cultura brasileiras.

Jancsó, que viria a falecer dias depois de Mindlin , em 2010, também chegou a lançar as bases para a digitalização das coleções. Com sua morte, acabou sendo nomeado para dirigir a BBM um de seus colaboradores mais próximos, o também historiador Pedro Puntoni. Foi quem de fato acompanhou toda a obra.

Dos R$ 130 milhões orçados para a construção, R$ 90 milhões vieram da USP, o restante foi captado de múltiplas fontes, como BNDES, Petrobrás, Votorantim, CSN, Santander, Instituto Moreira Salles. Acrescente-se à conta o apoio do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e do senador Eduardo Suplicy, que em três momentos levantou recursos via emenda parlamentar. "Pensando em como as coisas costumam se arrastar no Brasil, essa inauguração chega a ser um milagre", resume Pedro Corrêa do Lago, também bibliófilo e ex-presidente da Biblioteca Nacional.

Um passeio pelo prédio dá a noção do milagre. Da área aproximada de 20,5 mil m², 13 mil m² estão reservados às futuras dependências do IEB, e 7, 5 mil m², para a Brasiliana Mindlin . A área menor parece ter sido recompensada no programa da obra, que é mais diversificado. Além do prédio principal, a BBM tem um auditório com 300 lugares, galeria para exposições temporárias e abrigará as novas instalações da livraria da Edusp. No seu interior, os andares se articulam como anéis em torno de um vão central, de tal forma que, do piso térreo, o visitante tem a visão em 360º da biblioteca. Há um amplo salão de recepção e atendimento ao público, áreas de leitura, oficinas para pesquisadores, espaços para a realização de seminários e exposição permanente, reserva técnica.

Foram incorporadas as coleções completas dos jornais O Estado de S. Paulo, desde sua fundação em 1875, e Jornal da Tarde (1966-2012), um acervo de segurança que esteve sob a guarda do Museu Paulista (Ipiranga), também da USP. O convênio da BBM com o Grupo Estado sela a longa relação de Mindlin com a família Mesquita: além de ter presidido o conselho editorial do Estado, foi, na juventude, redator deste jornal. Gostava de lembrar que, antes de virar empresário, administrador cultural e homem público, havia passado por uma redação, o que considerava "uma experiência definitiva de vida".

Combinando concreto branqueado, muito vidro, painéis metálicos e alta tecnologia, o prédio exibe uma leveza que contrasta com a imagem pesadona de muitas bibliotecas pelo mundo. Dentro, móveis de produção industrial convivem com peças tiradas do melhor mobiliário contemporâneo brasileiro. É tudo muito simples e tudo muito elegante.

Transferir toda essa coleção de obras raras, parte delas fragilizada por uma idade que se conta em séculos, foi trabalho de logística. Neste caso, o milagre tem nome: Cristina Antunes, uma ex-funcionária do IEB que durante 32 anos foi o braço direito de José Mindlin na biblioteca do Brooklin. Sempre se disse que Cristina era a sua bibliotecária-mor. Mas sua entrevista de contratação, há três décadas, já colocava noutro patamar o vínculo que estabeleceria com o chefe. Consta que Mindlin teria perguntado a ela: "Você é bibliotecária?". Resposta: "Não". "Você gosta de ficha?". Reposta: "Não". "Você gosta de ler?". Resposta: "Adoro". "Então podemos começar a conversar", disse-lhe o futuro empregador.

Nos últimos meses, Cristina, que é sem dúvida a maior conhecedora do acervo, criou com sua equipe um sistema de classificação das obras, levando em conta a medição física dos livros e das estantes. A partir daí, montou planilhas identificando cada caixa embalada no Brooklin e o respectivo local de sua destinação na USP. Ou seja, ao chegarem ao câmpus, os livros eram desembarcados exatamente no pé da estante onde viverão a partir de agora. Nesta operação de mudança, que levou semanas e foi feita em sigilo por motivos de segurança, não houve nem um volume extraviado ou danificado.

"Quando despachei a última caixa e desliguei meu computador na casa do dr. José, fechei um ciclo", conta Cristina. Ela se refere a um tempo em que a presença de Mindlin era diária e constante naquela biblioteca que ultrapassara os limites do doméstico para se abrir a pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Muitos livros e teses acadêmicas saíram de lá. Com frequência, Mindlin autorizava o empréstimo de obras raras para exposições até fora do País. Enfim, era um bibliófilo sem aquele ciúme possessivo que muitas vezes caracteriza os colecionadores.

Com sua morte, os herdeiros optaram por reduzir o acervo, fazendo doações de livros mais novos para numerosas instituições, de prefeituras pelo País a comunidades indígenas e escolas do MST, o que terminou por causar certa desconfiguração do todo - bem como a decisão de fechar a biblioteca para solicitações externas, até que o núcleo da Brasiliana fosse para a Cidade Universitária. "Nos últimos anos, a biblioteca perdeu o contato com o mundo, murchou. Agora vai renascer", prevê Cristina, que continuará atendendo o público na espaçosa Sala Rubens Borba de Moraes (1899-1986), homenagem ao modernista, bibliófilo e grande amigo de José Mindlin , para quem deixou a própria Brasiliana. Mindlin preservava na casa do Brooklin a disposição dos livros tal como encontrara na casa de Moraes. Isso não muda na USP.

Para Pedro Puntoni, que muda mesmo é o caráter da coleção. "Torna-se uma instituição voltada para a sociedade, como a USP deve ser, aliás. Haverá uma notável expansão do uso dos livros. E eles serão parte de um centro cultural aberto a exposições, seminários, cursos, coedições. " Logo, logo Puntoni estará às voltas com a formação do primeiro conselho da entidade, composto por 11 membros indicados pela USP e 9, pelos filhos herdeiros. As diretrizes da BBM sairão daí. Não mais daquele senhor risonho, e simpaticíssimo, que costumava atender à porta da casa os pesquisadores que vinham consultar o objeto de sua paixão. Isso mudou mesmo.

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