Obra do cineasta Louis Malle é tema de mostra em SP

Jeanne Moreau gosta de contar que viveu o maior desafio de sua carreira na famosa cena de "Os Amantes", de 1958, em que Jean-Marc Bory desliza sobre seu corpo, desaparece da imagem e o diretor Louis Malle concentra a câmera no seu rosto em êxtase. Por causa da cena de sexo oral, o Vaticano tentou interditar a exibição do filme no Festival de Veneza e chegou a ameaçar o autor e sua estrela de excomunhão. Jeanne vivia, na época, com Malle. Haviam se apaixonado durante a filmagem de "Ascensor para o Cadafalso", um ano antes. Seu dilema era o seguinte - ela chegou a pensar em fazer a cena mal. Como? Tinha certeza de que se simulasse um orgasmo pleno perante a equipe, por mais fake que fosse a filmagem, Malle não aguentaria e a união iria encerrar-se.

AE, Agência Estado

07 de novembro de 2012 | 10h38

A quem servir - ao companheiro ou à personagem? Ela optou pela segunda. Estava certa. Malle terminou o affair imediatamente, embora não no mesmo dia. Permaneceram amigos, e Jeanne terminou trabalhando com ele em "Trinta Anos Esta Noite" e "Viva Maria!". Malle teria completado 80 anos em 30 de outubro. Nasceu em 1932, morreu em 23 de novembro de 1995, há quase 17 anos. Quando o câncer o vitimou, ele havia acabado de inventar uma nova forma de diálogo entre cinema e teatro com "Tio Vânia em Nova York", de 1994. Foi um fecho bem mais admirável para sua carreira do que teria sido "Perdas e Danos", baseado no livro de Josephine Hart, em 1992. Malle trabalhava na biografia de Marlene Dietrich. Queria contar, na tela, a história da estrela que desafiava os códigos de Hollywood com sua ambivalência sexual e foi uma batalhadora contra o nazismo.

Na verdade, Malle e o roteirista John Guare se propuseram um desafio e tanto - queriam concentrar não apenas a vida da mítica Marlene mas sua tempestuosa relação amorosa e artística com o diretor Josef Von Sternberg, num único dia de 1934, quando ambos realizavam "A Imperatriz Galante" em Hollywood. Malle perante os mitos - herdeiro de uma família de industriais, ele foi contemporâneo da nouvelle vague, mas qualquer tentativa para enquadrá-lo no movimento seria forçada. Sua trajetória se fez paralela ou à margem da nova onda. Quando se iniciou, e imediatamente começou a coletar prêmios, talvez tenha sido a inveja que levou alguns nova-ondistas a defini-lo como cineasta diletante. Era bem mais que isso e adquiriu a fama de cineasta do escândalo - o sexo em "Os Amantes"; o suicídio em "Trinta Anos Esta Noite", que adaptou de Drieu la Rochelle; o incesto em "Sopro no Coração"; o nazismo em "Lacombe Lucien" e "Adeus, Meninos"; a prostituição infantil em "Pretty Baby". No total, Malle fez 21 filmes, entre ficções e documentários, longas e curtas - o episódio William Wilson de "Três Histórias Extraordinárias", baseado em Edgar Allan Poe.

Já tinha uma obra sólida, senão exatamente extensa, quando fez o documentário "Calcutá", seguido de "Índia Fantasma - Reflexões Sobre Uma Viagem", em 1969. Ele próprio situava aí o verdadeiro início de sua carreira. O contato com a miséria da Índia o teria feito encarar o mundo de outra maneira. O problema da pobreza nunca é só social, pensava. Há sempre um componente mais íntimo, intrínseco às pessoas, como percebeu ao encarar o fatalismo místico dos indianos. Seguram-se o em parte autobiográfico "O Sopro no Coração", em que encarou o desejo por sua mãe e ela, Lea Massari, é compassiva com o filho que, na ficção, está doente e pode até morrer, e na sequência a provocação de "Lacombe Lucien".

O filme trata de um tema tabu, o colaboracionismo dos franceses durante a 2.ª Grande Guerra. O colaboracionista de Malle é um garoto, um jovem touro cheio de energia. Rejeitado pela resistência, adere ao nazismo mas se envolve com a garota judia. Não é a ideologia que o move - poucos filmes analisam de forma tão densa e funda o tema da alienação. O bom de uma programação extensa como essa - que também terá debates - é a oportunidade que oferece para o espectador analisar e relacionar os filmes, e também avaliar/desfrutar cenas que valem sozinhas como aulas de cinema. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

LOUIS MALLE

CCBB (Rua Álvares Penteado, 112), tel. (011) 3113-3651. R$ 4. Até 25/11;

Cinusp (Rua do Anfiteatro, 181), tel. (011) 3091-3540. Grátis. Até 23/11.

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