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Obra discute o sacrifício ritual moderno

Mecanismo do bode expiatório, caro às sociedades arcaicas, não foi abandonado na era da internet

João Cezar de Castro Rocha, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

René Girard nasceu em 1923, em Avignon. Em 1947 mudou-se para os Estados Unidos, onde fez toda a sua carreira docente.

Em 1961, com a publicação de seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca, principiou a formulação da "teoria mimética", cuja relevância apenas aumenta nas circunstâncias do mundo contemporâneo.

A intuição inicial da teoria mimética diz respeito à natureza triangular do desejo humano. Isto é, não desejamos a partir de nós mesmos. Pelo contrário, aprendemos a desejar através dos olhos de modelos que consciente ou inconscientemente adotamos. Somos todos autênticos personagens shakespearianos que sempre se apaixonam a partir da sugestão de outros. Como no refrão da música popular, a teoria girardiana também afirma que não há dois sem três!

Aliás, a centralidade do outro na determinação da própria identidade é a consequência mais radical da concepção da subjetividade na teoria mimética. René Girard e Oswald de Andrade estão de acordo: "Só me interessa o que não é meu". O sujeito mimético, portanto, é um perfeito antropófago.

Num segundo momento, com a publicação de A Violência e o Sagrado (1972), o pensador francês propôs uma hipótese ousada acerca da origem da cultura humana. Dada a natureza mimética do desejo, os homens tendem a desejar os mesmos objetos. O conflito então se torna inevitável, pois disputaremos a posse daqueles objetos. Sua generalização - recorde-se que a hipótese busca entender o momento imediatamente anterior à emergência da cultura - levaria o grupo à desagregação, se uma forma de controle da violência não fosse desenvolvida.

Através da leitura comparativa de mitos e textos literários, René Girard propôs que a violência de todos contra todos somente é apaziguada quando se metamorfoseia em violência de todos contra um único membro do grupo. Trata-se do mecanismo do bode expiatório que permitiu disciplinar a violência primordial. Os ritos e mitos originários seriam assim formas culturais de elaboração do mecanismo matriz da cultura humana. Por isso, a violência e o sagrado são inseparáveis.

A hipótese gerou muitas controvérsias. E quando René Girard precisou defender a "unidade de todos os ritos", ou seja, a origem comum dos ritos no mecanismo do bode expiatório, ele recorreu ao canibalismo tupinambá como evidência de sua teoria. Mais uma vez, Oswald e Girard encontram-se inesperadamente.

Em 1978, com a publicação de Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo, Girard rematou a arquitetura de seu pensamento através de uma dupla articulação.

De um lado, a combinação da etnologia com a etologia: sem reducionismos, tampouco exclusivismos, a emergência da cultura humana é vista no contexto das sociedades animais, mas sempre ressalvada a força do simbólico em nossa constituição.

De outro, a leitura antropológica das Escrituras judaico-cristãs: Girard defende que os episódios bíblicos devem ser lidos como uma reflexão autenticamente antropológica acerca do elo indissolúvel entre o sagrado e a violência. O pensador francês sustenta que nas Escrituras há uma denúncia da violência do mecanismo do bode expiatório, o que implica adotar uma atitude ética de defesa da vítima.

No momento, a Editora É e a Fundação Imitatio estão lançando no Brasil a Biblioteca René Girard: aproximadamente 60 livros serão publicados, com cuidadoso aparato crítico. Porém, não se trata do caminho usual: simplesmente divulgar nos tristes trópicos a obra de pensador estrangeiro. Para estar à altura da complexidade da teoria mimética, desejamos promover novas reflexões. Fiéis à inspiração antropofágica, não apenas pensaremos a circunstância brasileira com o auxílio de lentes miméticas, mas também, e com olhos livres, pretendemos oferecer à obra girardiana uma contribuição propriamente nossa.

Nossa, mas sempre a partir do outro - bem-entendido.

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UNIVERSIDADE

SEMINÁRIO INTERNACIONAL RENÉ GIRARD

Espaço Cultural É Realizações. R. França Pinto, 498, 5572-5363. Hoje e amanhã, 10 h às 16 h. Grátis - www.erealizacoes.com.br/renegirard.

RENÉ GIRARD - UM RETRATO INTELECTUAL

Autor: Gabriel Andrade

Editora: É Realizações

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