Obra de Rilke é presságio literário

A imagem escolhida pelo prefaciadordesta edição das Cartas a um Jovem Poeta, Nei Duclós, écerteira: sua leitura, hoje, pode ser tomada como uma mensagempremonitória - e dissonante - que Rainer Maria Rilke despachouaos poetas do século seguinte. "É como se Rilke nos esperasseno futuro", Duclós escreve, "não para cobrar a conta, mas comsua iluminação eternamente disponível para uma vida maiscompleta".Escritas entre fevereiro de 1903 e dezembro de 1908, emrespostas a cartas que recebeu do poeta iniciante Franz XaverKappus, que se questionava a respeito de sua vocação poética, asCartas de Rilke adquiriram, com o tempo, uma força aindamais desestabilizadora. O próprio Kappus cuidou de publicá-laspela primeira vez, omitindo as próprias cartas. Elas ganham umsabor especial se confrontadas aos impasses disseminados napaisagem poética de hoje.Para começar, Rilke não separa poesia e vida mas, aocontrário, vê a poesia como o resultado de uma atitudeexistencial particular, aquela que se pauta não pelo alinhamentoa grupos ou tendências literárias, mas pela absoluta solidão.Esse elo, que a grande maioria dos poetas contemporâneos pareceter perdido, ou pelo menos desprezar, adquire um tom tãovigoroso que, no prefácio à primeira edição brasileira, de 1953,agora reproduzido, Cecília Meireles, num momento deinsensibilidade, chega a dizer que "de literatura, propriamente, pouco falam as cartas".As cartas de Rilke ganham hoje, ao contrário, a forma deum presságio. Um presságio literário. Já na primeira delas, oautor das Elegias de Duíno sugere a Kappus que se esqueçados apelos externos, e se paute apenas pela experiência esinceridade: "Relate suas mágoas e seus desejos, seuspensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza - relate tudoisto com íntima e humilde sinceridade", ele aconselha. Em vezde olhar para fora, para o brilho social, para as escolasestéticas, para o desenrolar da história literária, o poeta,segundo Rilke, deve olhar para dentro: "O senhor está olhandopara fora, e é justamente o que menos deveria fazer nestemomento", diz. Em vez de uma poesia que se iguala aos objetos,ou que se detém nos exercícios da linguagem, Rilke propõe umapoesia fixada na necessidade e na introspecção, com a qual opoeta possa "soerguer as sensações submersas".O jovem Kappus deve ainda, ele sugere na carta seguinte,apartar-se da ironia - instrumento, aliás, fundamental para apoesia contemporânea, baseada em grande parte na paródia, nopastiche, na citação. Em vez disso, em vez de se apoiar nosarcasmo ou no jogo de palavras, cabe ao poeta perseguir agravidade. "Busque o âmago das coisas, aonde a ironia nuncadesce", propõe Rilke. Deve ainda - não só contrariando, mascolocando em xeque, mais uma vez, os preceitos da poesia de hoje- fugir da influência da crítica. "Deixe-me fazer-lhe aqui umpedido: leia o menos possível trabalhos de estética e decrítica", Rilke recomenda. "As obras de arte são de umainfinita solidão: nada as pode alcançar tão pouco quanto acrítica." Sugestão que, ouvida hoje, ganha um caráter quasedevastador.Vida pobre - Na antecipação de uma estética exercidahoje, entre outros, por um poeta do porte do brasileiro Manoelde Barros, Rilke aconselha Kappus, ainda, a agarrar-se às coisasinsignificantes. Aferrar-se "à natureza, ao que ela tem desimples, à miudeza que quase ninguém vê". Ainda que leve umavida pobre e um cotidiano cheio de restrições, é dessa vidapobre e desse cotidiano monótono que o poeta deve partir, "desua inclinação e de sua maneira de ser". Rilke antecipa a idéia, afinal moderna, de que a poesia,e a arte, são o terreno absoluto do particular, onde tudo éintransferível, e nada pode ser doado, emprestado, ou roubado."Tudo é grave", ele diz, sendo essa gravidade o elementocrucial da poesia. Daí, ele insiste, a necessidade, imperiosa,de evitar as superfícies e aferrar-se à solidão. "Entrar em simesmo, não encontrar ninguém durante horas - eis o que se devesaber alcançar", prescreve a seu jovem missivista.Numa direção oposta à tomada pelos poetas"universitários" de hoje, aqueles que escrevem perfiladossobre a perspectiva da história literária e num gaguejarcontínuo com seus ascendentes, Rilke propõe a solidãoirremediável, aquela que, aos olhos de hoje, talvez venha a serconfundida com a cegueira. Numa carta expedida de Roma, em 1903,ele fala de sua desilusão com a cidade e de seu desprezo por"todas aquelas coisas deformadas e gastas que, afinal de contas são apenas os restos casuais de outra época", isto é, opassado, venerado ainda hoje em monumentos, prédios tombados esítios arqueológicos. Em Roma, prefere os jardins, as águasdespejados pelos aquedutos, as pequenas impressões, em contrastecom "a pretensiosa multidão que fala e tagarela por todaparte". A história o desvitaliza; em seu lugar, Rilke coloca opresente.Com isso, ele alarga os domínios clássicos da poética eda estética, não porque prefira distrair-se com o natural, ouporque ignore o valor do passado, mas sim porque, para ele, éexatamente aí, na dificuldade em lidar com o que é, que seguarda a energia poética. O poeta deve saber agarrar-se aodifícil: "É bom estar só, porque a solidão é difícil", diz."Amar também é bom: porque o amor é difícil." Ciente dessafronteira frouxa que na verdade não separa, mas une, dois mundos Rilke imiscui-se até na vida amorosa de Kappus, insistindo queo amor deve distinguir-se da fusão.Solidão - O amor abre o momento perfeito não para osujeito dissolver-se em outro, diz, mas para "tornar-se algo emsi mesmo, tornar-se um mundo para si". A presença constante doamado a seu lado deve transmitir ao amante não o desejo desimbiose mas, em vez disso, o de isolamento - sendo o amor, navisão de Rilke, mesmo o amor bem-sucedido, uma trilha para asolidão. Ainda quando desiludido com o amor, o amante não deveimaginar que a saída está na separação, "um passo convencional,uma decisão fortuita e impessoal, sem força nem fruto". Ao contrário, é preferível persistir no atrito abertopelo laço sentimental entre dois seres distintos, tirar proveitodisso e ali, nessa fricção entre dois corpos, estabelecer suafronteira pessoal - servindo o amado, sempre, não como salvação,mas como abismo.Rilke realça para Kappus, ainda, o valor da tristeza eda desilusão, até porque "nada de estranho nos acontece, senãoo que já nos pertence desde há muito". A solidão, portanto, nãodeve despertar medo, mas o espanto, já que carrega consigo anovidade - não a novidade ligeira, das modas e escolas, masaquela novidade "velha", que já estava ali e ainda não tinhasido desvelada; a única pela qual o poeta deve se interessar."Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada,poderá ir até o fundo de sua própria existência", medita - eaqui, depois, veio ressoar o célebre verso de Pessoa: "Nada teuexagera, ou exclui." Rilke vê a vida como uma contínuainquietação (Pessoa falaria em desassossego, o que dá no mesmo):"Também não se deve assustar, caro sr. Kappus, se uma tristezase levantar na sua frente, tão grande como nunca viu; se umainquietação lhe passar pelas mãos e por todas as ações como umaluz ou a sombra de uma nuvem." Tudo isso, ainda que doloroso,trabalha sempre a favor do poeta.Apesar disso, não deve o poeta entregar-se ao "drama",ou se deixar impressionar pelo "grandioso". Mas, sim, ater-seà tranqüilidade das coisas reais. "Toda intensificação é boa",diz, mas a intensificação não deve ser confundida com o exagero,ou a grandiloqüência. "Toda intensificação é boa quando está emtodo o seu sangue, quando não é turva ebriedade." Daí também,Rilke prossegue, a necessidade, imposta aos poetas, de fugir das"profissões meio artísticas". Entre elas, enumera "ojornalismo, quase toda a crítica e três quartos daquilo que sechama e se quer chamar literatura". Alegra-se quando recebeuma carta de Kappus comunicando que se engajou nas forçasarmadas. "Sim, alegro-me de que leve essa existência firme econcreta, com essa patente, esse uniforme, esse serviço com tudoo que tem de tangível e limitado." O poeta deve buscar aquelascircunstâncias superiores que nele operem violentamente, e que ocoloquem diante da natureza, "eis tudo o que se faz mister".As Cartas a um Jovem Poeta foram escritas no mesmoperíodo em que, invertendo as posições, o próprio Rilke escreviaa Auguste Rodin, em busca de conselhos sobre a arte de viver ecriar. Fato que basta para atestar sua complexidade. Elas sãoseguidas, nessa edição, de A Canção de Amor e de Morte doPorta-Estandarte Cristóvão Rilke, texto escrito de um sófôlego numa noite de 1899, no qual poesia e prosa se mesclamlivremente. Inspirada na experiência de um antepassado, que opoeta toma como sua, a canção é uma antecipação vibrante dasmeditações contidas nas cartas a Kappus.

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