Obra de poeta persa chega ao Brasil

A revista Time elegeu, na edição do último dia do ano passado, as personalidades do milênio. Entre nomes estelares tão díspares como Albert Einstein e São Francisco de Assis, estava aquele considerado o grande místico dos últimos mil anos: Maulâna Djalal ad-Dîn Rûmî, poeta persa nascido no século 13, onde atualmente é o Afeganistão e criador de uma obra que reverbera ainda hoje em países distintos como os muçulmanos (Irã, Turquia e Paquistão) e os Estados Unidos - se para aqueles Rûmî criou o Corão persa, para esses inspirou pop stars como Madonna a gravar um CD com leituras de seus poemas de amor.Pouco conhecida no Ocidente até cerca de dez anos atrás, a obra de Rûmî ganha agora uma cuidada seleção em português, A Sombra do Amado: Poemas de Rûmî (136 págs., R$ 23), que a novata editora Fisus oferece como cartão de visitas, escolhendo um poeta já comparado a Dante e Shakespeare. Filósofo e místico do Islã, Rûmî advogava a tolerância ilimitada, a bondade, a caridade e a consciência de si por meio do amor. Guardando o mesmo olhar sobre muçulmanos, judeus e cristãos, seus ensinamentos pacíficos e tolerantes impactaram as pessoas de todas as religiões, seitas e credos.Rûmî deixou uma obra impressionante, de modo que continua sendo um desafio abordá-la em sua totalidade, tal a complexidade da relação entre mística e poesia, cuja fronteira nem sempre resulta muito clara. Para que a edição brasileira não caísse na armadilha de apresentar uma seleção desconexa de poemas, foi essencial a participação de Marco Lucchesi que, além de traduzir a poesia ao lado de Luciana Persice, decidiu por uma delicada unidade, que se voltasse para a busca incessante da figura divina do Amado. Autor e exímio tradutor, Lucchesi é um apaixonado confesso pela obra de Rûmî. "Descobri-o em um sebo, em meio a prateleiras empoeiradas e com o coração batendo forte", conta. "Comecei a estudar o turco e segui, na cidade de Konya (Turquia), a dança dos dervixes (homens-santos)." Consta que o poeta compunha seus versos quando estava em estado de êxtase, ao som da flauta ou de um tambor, ou mesmo ao ouvir o martelar de um ourives ou os ruídos rítmicos de um monjolo.Barreiras - A disposição de Lucchesi em verter ao português a poesia de Rûmî, porém, enfrentou diversas barreiras. De saída, a dificuldade com o idioma. "Foi a primeira vez que me aventurei em uma tradução sem um mais sólido conhecimento da língua-origem, no caso o persa", explica. "Detinha apenas um pequeno campo semântico e algumas informações gramaticais."O tradutor começou utilizando seu conhecimento de árabe clássico. "O persa absorve a caligrafia árabe, adiciona-lhe quatro letras, mas a língua é absolutamente diversa; algo como a distância entre o francês e o alemão", comenta. "Depois do árabe, tenho estudado, com raiva e paixão, o persa e o turco; são línguas intensas, de fogo e diamante."A tarefa incluiu também o aprendizado da escrita nastaaliq, de grande beleza, mas inicialmente muito árdua e de muita importância na leitura de três poemas no original. "Para compensar a deficiência, consultei não poucas edições, mas as melhores foram a alemã, de Annemarie Schimmel, a italiana, de Alessandro Bausani, e a inglesa, de Nevit Ergin."A meta era alcançar a música dos versos, elipses e anáforas (repetições) de Rûmî, sabendo de antemão as perdas para a língua portuguesa quanto ao jogo de longas e breves (que constitui a melodia do verso na língua farsi) e quanto à sua impressionante capacidade de aglutinação. "O persa coagula, condensa e aglutina suas frases, de modo incomparável; do ponto de vista da tradução, que considero um processo semelhante ao da alquimia, para chegarmos à Pedra Filosofal (ou ao seu resíduo) deve-se traduzir de um sistema literário para outro."A homologia chegou finalmente por meio dos textos do espanhol Juan de la Cruz (também traduzido por Lucchesi), de cânticos, da Bíblia e de uma série de autores místicos, de nossa tradição. O descobrimento da obra de Rûmî foi lenta e gradual no Ocidente, atingindo autores como Hegel e Goethe. "Este, aliás, no Divã Ocidental-Oriental, absorve algumas palavras persas: em vez de Nachtigall, rouxinol em alemão, prefere bulbul", lembra o tradutor.A ambigüidade da poesia devocional de Rûmî, que se confunde com o amor humano, encantou ainda o compositor minimalista Philip Glass que, em 1997, criou o Monstros de Graça, espetáculo em que são declamados 16 de seus poemas em meio a um show de computação gráfica. "Ele ensina que a nossa capacidade de amar nos fornece uma conexão com o divino", comentou o músico, na época.Em 1998, foi lançado, nos Estados Unidos, o CD A Gift of Love, em que artistas famosos (Madonna, Demi Moore, Goldie Hawn, Martin Sheen) declamam versos amorosos do poeta sufi.Também no Brasil, a poesia de Rûmî atingiu os palcos, nos trabalhos Tu e Eu, estrelado por Walderez de Barros, e Ghazal, de Regina Miranda. A forte presença do poeta ainda cerca Marco Lucchesi que, apesar de estar finalizando Os Olhos do Deserto, livro de poemas a ser lançado neste mês, e de estar às voltas com um romance, sente Rûmî como um de seus fantasmas. "Ele me habita. Ele me sabe."

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