Obra de Plínio Marcos ganha mostra em SP

Chega a ser irônico. Plínio Marcos (1935-1999), depois de ter alcançado o nada desejável recorde de ter sido um dos dramaturgos mais censurado do País - Barrela por exemplo, seu primeiro texto, ficou interditado por 20 anos - parece estar destinado tornar-se também um autor recordista em montagens simultâneas de suas peças. Ano passado, sete de seustextos subiram aos palcos paulistanos.Um fenômeno que talvez possa ser melhor compreendido apartir de amanhã, quando começa na Oficina Oswald deAndrade a Mostra Plínio Marcos - Na Trilha dos Saltimbancos,promovida pela Secretaria Estadual da Cultura de SP e coordenadapor Valdir Rivaben. Reunindo espetáculos, leituras dramáticas,debates e palestras, o evento propiciará uma visão panorâmica desua obra acompanhada de uma reflexão sobre a trajetória pessoale artística.Antes de mais nada, a mostra traz de novo à cena algumasdas montagens de peças do autor que tomaram conta da cenapaulistana ano passado. Abajur Lilás, espetáculo dirigidopor Sérgio Ferrara com Esther Góes, Sérgio Rufino e AngelaBarros no elenco, abre o evento amanhã, às 20 horas. SérgioFerrara foi também o diretor de uma ótima montagem deBarrela, que infelizmente não participa da mostra, um dosprimeiros espetáculos dessa safra a chegar aos palcos. Essadupla experiência valeu ao diretor a percepção do estigma demaldito que ainda marca o autor - foi impossível conseguirpatrocinadores. "Há resistência ao seu estilo dramatúrgico eaos temas abordados", diz Ferrara.A censura foi suspensa, mas deixou suas marcas. Acontundência da dramaturgia de Plínio Marcos ainda assusta. "Umdos prováveis patrocinadores chegou a contar o número depalavrões da primeira página", conta Ferrara. Por outro lado,ele observa que os atores dedicaram-se com "paixão feroz" àsmontagens. "E aos poucos quebrou-se a resistência do público eaté mesmo de alguns teatros, que temiam deparar-se com platéiaesvaziada. Foi lindo o resgate que os palcos paulistanos fizeramda obra de Plínio Marcos, algo semelhante ao que o Rio tambémfez com Nelson Rodrigues, sem dúvida dois dos maioresdramaturgos brasileiros."Mesmo sem algumas das boas montagens que estiveram emtemporada, entre elas a já citada Barrela ou Navalha naCarne na direção de Eduardo Tolentino com o Grupo Tapa, amostra de espetáculos do evento tem a vantagem desmontar a falsaidéia de que todos os personagens de Plínio eram bandidos ouprostitutas. Mas importante do que "a profissão" da genteretratada por Plínio são as condições sociais em que vivem, queservem de "estopim" para a explosão da violência da qual o"autor" costuma ser acusado.Em Quando as Máquinas Param, peça dirigida porJoaquim Goulart com Edimilson Cordeiro e Cácia Goulart no elenco tem como personagens um casal de trabalhadores. Pobres, vivemem harmonia conjugal e, como tantos outros na mesma situação,talvez vivessem para sempre em relativa paz, não fosse o súbitodesemprego do marido. Sem qualificação, ele volta de "mãosabanando" a cada dia que sai para procurar trabalho. Acrescente frustração desse homem educado para ser "o provedor"do lar, acaba por despertar nele uma brutal violência até entãocontida pela relativa paz alcançada ao lado da mulher a quemamava.Homens de Papel, com 14 atores sob direção deAntonio de Andrade tem como personagens catadores de papel,pressionados pelo autoritário "atravessador" Berrão. ManchaRoxa, dirigida por Roberto Lage, está ambientada num presídiofeminino e foi escrita a partir de um trabalho deconscientização sobre a aids em penitenciárias, para o qualPlínio foi convidado a partir de uma pesquisa na qual eleaparecia como o autor mais conhecido entre os detentos. Baladade um Palhaço é quase um manifesto do autor sobre a "arte"colocado na boca do palhaço Bobo Plin. E a Dança Final, aúltima peça do autor cuja primeira montagem estreou naquinta-feira em São Paulo tem como personagens um casal declasse média.Além da visão panorâmica da obra de Plínio Marcos, asapresentações dos espetáculos e as leituras dramáticas de seustextos apóiam o ciclo de palestras que começa no dia 15. Ajornalista Vera Artaxo, companheira do dramaturgo em seusúltimos anos de vida, será a mediadora de todas "mesas". Odiretor teatral César Vieira, o crítico Jefferson del Rios e oator e dramaturgo Oswaldo Mendes e a atriz Marta Tramonte estãoentre os palestrantes que vão abordar a personalidade, a obra ea trajetória pessoal do artista Plínio Marcos.Oficina Cultural Oswald de Andrade - Rua Três Rios, 363.Retirar convite na Oficina com duas horas de antecedência.Grátis.

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