Obra de Nina Raine mostra uma realidade próxima e poderosa

Com 'Tribos', Antonio Fagundes retoma o trabalho cooperativado, que independe de patrocínio

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h15

Tribos marca o retorno a uma forma antiga e saudável de se produzir teatro: por meio de uma cooperativa. "Decidimos não buscar patrocinadores tampouco inscrever a montagem nas leis de incentivo", comenta Antonio Fagundes que, no início da carreira, acostumou-se ao esforço coletivo para levantar espetáculos instigantes como Morte Acidental de um Anarquista e Cyrano de Bergerac.

Assim, a montagem nacional do texto de Nina Raine nasce a partir da soma de talentos, que incluem ainda a iluminação de Domingos Quintiliano e os figurinos de Alexandre Herchcovitch. "Era preciso criar um guarda-roupa específico para essa família", comenta Bruno Fagundes. O detalhe, aliás, alinha-se a um importante ponto do trabalho do diretor Ulysses Cruz: a verossimilhança. "São todos personagens muito particulares, às vezes malucos demais, mas demasiado humanos", observa. "Assim, no trabalho com o grupo, sempre me preocupei em não deixar que o humor fosse utilizado como arma fácil para agarrar o público."

Tribos é definida pelos atores como uma comédia perversa. De fato, há diálogos hilariantes que, muitas vezes, mascaram os problemas familiares. "O pai, por exemplo, não admite aprender a linguagem de sinais, por considerá-la dispensável e difícil, mas, mesmo assim, orgulha-se de estudar mandarim", conta Fagundes.

O que interessa aos atores, no entanto, são as diversas camadas de entendimento oferecidas pelo texto de Nina Raine. A deficiência auditiva de Billy é uma metáfora para as limitações do ser humano. "A peça fala sobre como as pessoas não se ouvem mais", observa Fagundes. "Hoje, é comum encontrar principalmente jovens curvados sobre seus celulares, alheios ao que ocorre ao redor. Isso é uma espécie de surdez social, quase não temos mais conversas olho no olho."

O próprio ingresso de Billy ao mundo da linguagem por sinais revela um dilema enfrentado por pessoas com deficiência auditiva. Afinal, se eles aprendem uma nova forma de se comunicar, estarão condenados a um gueto? Ou, na verdade, estão apenas se fixando em sua própria "tribo", capaz, enfim, de se expressar livremente?

As questões acompanharam a preparação de Bruno Fagundes e Arieta Correia, que conheceram, pela internet, rapazes e moças que vivem socialmente com a deficiência. O trabalho foi marcado por surpresas. "Comecei a estudar com um instrutor que não lia lábios, ou seja, só falava por sinais", lembra Bruno. "Tivemos de fazer alguma mímica nas primeiras aulas até eu aprender alguns sinais." O ator engajou-se de tal forma que agora frequenta grupos, mantendo contato constante.

Já Arieta buscou auxílio na escola do filho, que mantém atividades especiais para deficientes auditivos. "Comecei a frequentar os encontros e logo descobri que são pessoas extremamente amáveis", observa a atriz. "Eles utilizam muito as mãos e, por isso, o tato é uma forma de exprimir carinho."

O grupo de atores também aprofundou o estudo do livro Vendo Vozes (Companhia das Letras), em que o neurologista inglês Oliver Sacks desvenda o universo dos surdos, a partir do drama e das lutas das pessoas portadoras da deficiência.

"Vamos fazer também alguns testes, reservando espaço em algumas sessões para os surdos", conta Antonio. "Dependendo dos resultados, queremos tornar essa prática regular." Uma intenção de quem pretende alargar a socialização por meio da arte. "Afinal, o mundo é surdo e, muitas vezes, cruel."

Nina Raine veio a São Paulo no ano passado, convidada pela Cultura Inglesa para acompanhar o ensaio aberto de sua primeira peça, Rabbit, escrita em 2006 e cuja encenação na Inglaterra despertou a atenção da crítica, por conta de seus diálogos afiados, ditos por personagens ferozmente opinativos.

Rabbit se passa toda durante a festa de aniversário de Bella, uma garota revoltada e mordaz, enquanto seu pai está no hospital lutando contra um câncer.

A intimidade com as letras é uma tradição de família - Nina é a filha única do poeta Craig Raine, conhecido pelos versos marcados por metáforas visuais e humorísticas, e sobrinha neta do novelista russo Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago.

Quatro anos depois do sucesso de Rabbit, Nina voltou a surpreender com Tribos. Se a minoria da crítica britânica estranhou o excesso de palavrões, os elogios predominaram, especialmente por conta da maneira perversamente divertida e politicamente incorreta com que revive as típicas questões familiares e reforça as dificuldades de convivência - como em toda tribo.

Em entrevista ao Estado, em 2012, Nina confessou sua surpresa ao ser questionada sobre o poder que a ficção tem de interferir na realidade e até criar novas realidades. "Foi engraçado ver como as pessoas enxergavam suas próprias vivências refletidas em Tribos", disse. "Os gays sentiram que a peça contava sua história. Depois, uma amiga, que tinha recentemente dado à luz, chorou dizendo ter sentido que Tribos ecoava o isolamento que ela tinha acabado de descobrir - e uma amiga negra a interrompeu, dizendo: 'Ora, pensei que a peça traduzia a sensação de ser uma negra entre os brancos'. Creio que uma peça só pode ter tamanho impacto na realidade vivida pelos outros quando ela mostra uma realidade própria extremamente coesa e poderosa." / U.B.

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