Obra de espírito antropofágico merece cuidados

Obra de espírito antropofágico merece cuidados

Análise:

Fábio Delduque, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2010 | 00h00

Neste ano em que tanto se incensa a obra de Flávio de Carvalho existe uma questão urgente que não está sendo suficientemente enfrentada: a da preservação das poucas obras de arquitetura que esse grande artista brasileiro edificou. Apesar de não ter participado da Semana de Arte de 22, Flávio de Carvalho foi um dos mais fecundos representantes do modernismo brasileiro, bem como de uma vertente de pensamento que não distingue a vida da obra. Sempre crítico e provocador, uniu as vanguardas de seu tempo às mais fundas raízes da cultura brasileira, canibalizou a arte europeia e a trouxe para nossa realidade índia. Eis aí em sua plenitude o espírito antropofágico que Oswald de Andrade tão bem conceituou.

Flávio sempre foi um visionário. As primeiras performances da história da arte brasileira foram por ele realizadas. Além disso, em 1933, ele escreveu O Bailado do Deus Morto, nossa primeira peça teatral de espírito moderno e antropofágico, e a encenou três vezes no Teatro da Experiência, espaço que fundou, dentro do Clube de Arte Moderna (CAM), para dar lugar às mais diversas e livres experimentações cênicas, musicais, de luz, etc. Era, enfim, um palco para se testar propostas ousadas, nunca antes realizadas, bem como o modo que a plateia reagia a elas. A censura da época, não entendendo nada do que lá se passava, julgou por bem fechar o local.

Multifaces. Apesar de todas essas credenciais e do reconhecimento da crítica e da classe artística, Flávio de Carvalho ainda não foi suficientemente absorvido pela cultura brasileira. E seu legado arquitetônico está sob séria ameaça. Uma vez que a imensa maioria de seus projetos, ainda que muito famosos e midiáticos, não saiu do papel, a casa-sede da Fazenda Capuava e o conjunto de casas da esquina das Alamedas Lorena e Ministro Rocha Azevedo são os únicos exemplos da arquitetura do mestre que nos restam. As casas foram completamente descaracterizadas e a sede da fazenda carece de reformas urgentes. Construída no fim dos anos 30, a casa sede lhe serviu de moradia, ateliê e espaço para experimentos artísticos diversos, e expressa bem tanto suas inovações modernistas quanto seu espírito multifacetado. Com 8 m de altura e 16,5 m de comprimento, a sala é na verdade uma caixa enorme, na qual o artista testava experimentos de cenografia, decoração, design, etc., bem como inventava novos modos de viver a vida. No centro da caixa, havia uma lareira que reunia fogo e água: uma peça de metal recebia em sua face superior jatos de água que, em contato com o metal quente, evaporavam e assim criavam um efeito cenográfico especial, que era ainda acentuado pela iluminação colorida feita sob medida para o espaço. Havia ainda uma mesa de tampo de cristal com um sistema de iluminação interno que criava reflexos nas louças e talheres. Decorado ainda com máscaras indígenas, adornos de penas e tecidos de cores vibrantes, esse espaço multiuso foi utilizado por Flávio tanto para receber seus amigos em festas e banquetes quanto para pintar e receber suas famosas modelos e amantes.

No Brasil, parece que uma doença crônica nos impede de preservar nossas construções e memórias. Alguns pontos da cidade de São Paulo já foram reconstruídos mais de dez vezes, e neles quase nada se mantém de uma geração para outra. Ao mesmo tempo em que a cidade avança, a história vai sendo apagada e os patrimônios públicos, destruídos, com a complacência das autoridades responsáveis por sua preservação. O prejuízo é inestimável. A hora é de ação.

Flávio de Carvalho é para mim um mestre antigo. Assim como ele, herdei uma antiga fazenda de café - a Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista - e, sob sua forte influência, há anos eu a venho transformando num espaço aberto para experimentações artísticas as mais diversas. Em 2010, o Festival de Arte que lá realizamos chegará a sua 9.ª edição, sem ter jamais abandonado sua vocação original de educar por meio do diálogo solto entre as muitas formas da arte. Avalio que esta longa experiência me levou a ???realizar a importância da preservação da obra de Flávio de Carvalho, bem como escrever estas linhas e gritar: "Salve Flávio! Viva Flávio!"

FÁBIO DELDUQUE É ARTISTA PLÁSTICO, DIRETOR DE ARTE E PRODUTOR CULTURAL

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