Obra de Derrida é um estímulo ao pensamento e à dúvida

O filósofo francês de origem argelina Jacques Derrida é um superstar no mundo intelectual e universitário, que, aos 70 anos, percorre do Pacífico ao Atlântico europeu. Superstar e polêmico. Como todo superstar - uma visão da platéia -, ele é identificado por palavras mágicas ou aspectos que têm o condão de provocar fascínio e raiva, amor e ódio. São uma espécie de rótulo. Madonna, por exemplo, está imediatamente relacionada a arrivismo, talento promocional e presença feminina cheia de glamour kitsch; Michael Jackson é uma mistura de gênio da dança pop e um tipo radical de transformismo e ambigüidade. O nome Derrida virou sinônimo de desconstrução e difference-différance, termos chave do pós-modernismo.O tumulto - relativo ao mundo intelectual - causado pelo filósofo não parece afetá-lo. Fala e escreve com a determinação, a ironia, a inteligência de uma agilidade fantástica, atacando os mais diversos assuntos, os mais insuspeitados discursos, submetendo-os a análises capazes de revelá-los pelo que aparentemente não são. Ao falar de Levi-Strauss, por exemplo, parte de um estudo sobre os mitos para dar-lhes uma visada filosófica discutindo a situação do homem contemporâneo diante das "verdades", do texto aceito da cultura. É um filósofo que incorpora a multiplicidade do dizer poético que diz e ao mesmo tempo diverge a partir do tema, desfocando-o. Mas é fácil e perigoso fazer trocadilhos a respeito.Como Borges, Derrida provoca outros modos de leitura, seja de obras escritas, seja de fatos, da história, da vida. Sua desconstrução não quer dizer simplesmente destruição, como adverte Barbara Johnson em The Critical Difference, associando-a "ao sentido original da própria palavra "análise", que etimologicamente significa "desfazer" - um virtual sinônimo para "des-construir". Se alguma coisa é destruída numa leitura desconstrutiva, não é o texto, mas seu apelo para um inequívoco domínio de um modo de significar sobre outro. Uma leitura desconstrutiva é uma leitura que analisa a especificidade da diferença crítica de um texto a partir dele mesmo." Daí a difference-différance. Diferença e, mais ou menos, desvio.O efeito do seu questionamento pode ser medida pela freqüência com que seus ensaios são estudados em artigos, teses e dissertações. Isso parece decorrer por causa da sua capacidade de espicaçar, ou seja, de efetivar seu objetivo, que é o de levantar a dúvida sobre a certeza e a dúvida. Seu estilo complicado e irônico dá impressão de pernóstico e prolixo, mas nessa forma de escrever verifica-se no entanto o uso enviesado de recursos retóricos até a exasperação. É um modo de pegar a questão por dentro dela mesma. Quem vê nisso apenas o charlatanismo de um autor interessado em complicar a passagem reta de a até b não percebe que, de a até b existe um desvio levando até o mesmo ponto onde se torna b-a. Como sabemos, a tradução do Quixote para o castelhano jamais coincidirá com o original.

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