Obra de Camões denunciou censura

A primeira manisfestação dapresença da censura aconteceu na edição de 29 de junho de 1973,quando a coluna Notas e Informações do jornal O Estado deS.Paulo, dedicada aos editoriais, apresentava um corpoestranho: o Canto VIII do poema Y Juca Pirama, do poetaromântico Gonçalves Dias. Apesar da indiscutível beleza, osversos estavam ali para ocupar o espaço destinadooriginariamente ao editorial "A Censura do Cinema", quecriticava um ato do Departamento de Polícia Federal de proibir aexibição nos cinemas de dez filmes que, dias antes, foramdevidamente liberados. Considerado impróprio, o editorial foicensurado e teve de ser substituído.Com o uso da poesia de Gonçalves Dias, o jornal iniciavasua luta contra a auto-censura imposta pelo governo militar:como se recusava a ocultar do público de forma deliberada asnotícias que não agradavam o regime, o jornal decidiu utilizarartifícios que denunciassem a ação dos censores presentes àredação.A grande maioria dos vetos foi substituída por poesias epoemas de autores nacionais e estrangeiros de variadas épocas eescolas literárias, mas uma obra se sobressaiu: Os Lusíadas,de Luís Vaz de Camões, foi utilizada 656 vezes, destacando-secomo principal forma do Estado alertar seus leitores de queestava sob censura.A luta foi acirrada: entre 29 de março de 1973 e 3 dejaneiro de 1975, o total de matérias vetadas chegou a nada menos1.136, destacando-se os assuntos políticos como os mais visados(foram vetados 342 vezes). Além disso, constavam ainda 39editoriais e 54 matérias assinadas. Até descobrir a eficiênciado uso dos poemas de Camões, no entanto, o jornal testou outrasalternativas, nem sempre bem-sucedidas. A primeira foi a dequebrar uma tradição: na época, o Estado só publicava cartasde leitores aos domingos, nas últimas páginas. Mas, de repente,sem qualquer aviso prévio, a correspondência começou a pipocarnas páginas nobres da política e também em dias da semana.Aos poucos, outras estratégias foram surgindo. Em junhode 1973, por sugestão do diretor Julio de Mesquita Neto, aslacunas deixadas pela ação dos censores passaram a serpreenchidas com poesias. Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias,foi o primeiro, seguido de obras de importantes nomes como OlavoBilac (seu O Caçador de Esmeraldas foi o segundo poema maisutilizado, em 27 oportunidades), Manuel Bandeira, CecíliaMeireles e outros.Em 2 de agosto, finalmente, começou a publicação, empequenos trechos, do poema que se transformaria no código dedenúncia da censura: o épico Os Lusíadas. O primeiro canto,que se inicia com o verso "As armas e os barões assinalados",substituiu um editorial. A partir daí, o poema de Camões foireproduzido em outras 655 vezes até 1975 para substituir omaterial censurado no Estado.A ação dos homens encarregados de vetar notícias seguiuuma rotina, a partir de 24 de agosto de 1972, quando os censoresinvadiram a redação. Eles costumavam chegar à sede do jornal,então na Rua Major Quedinho, pela manhã, às 11 horas, enormalmente traziam as indicações do dia. Em 10 de maio de 1973,por exemplo, quando renunciou o ministro da Agricultura, Cirnede Lima, o censor chegou com a informação de que estava liberadaa carta de renúncia, mas proibidos comentários.Provas de todas as páginas do jornal deveriam sersubmetidas ao seu crivo e ele, com um lápis vermelho, riscava oque deveria ser eliminado - alguns chegaram a assinar as páginascensuradas. De cada página vetada, tiravam-se cópias para oarquivo, para a direção e, às vezes, para o mural da redação.

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