Obra de Bráulio Pedroso é preservada

Ao morrer aos 59 anos, em agosto de 1990, Bráulio Pedroso deixou consolidada a renovação da novela brasileira, atribuída a Beto Rockefeller, que estreou na TV Tupi em 1968, e é até hoje considerada um divisor de águas na teledramaturgia do País. Além de autoria de outras novelas, como O Rebu, Super-Plá, O Bofe, Pulo do Gato, Feijão Maravilha, entre tantos outros textos escritos para a TV, deixou também peças, contos, idéias de projetos não concretizados. Agora, dez anos depois de sua morte, a obra de Bráulio Pedroso ganha nova vitalidade. Desde o dia 10 de outubro, o acervo do escritor encontra-se no arquivo do Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, graças à doação de seus três filhos, João Manoel, Felipe e Cristine. Durante estes dez anos, coube a João Manoel Pedroso a guarda do material, distribuído por algumas centenas de pastas, com originais de textos, sinopses, microfilmes. Se bem que boa parte do material seja conhecida, há muita coisa inédita, entre elas quatro peças, sinopses de programas para TV e até mesmo um musical em parceria com Tom Jobim ? Gira América: Ida e Volta?, e um roteiro de cinema, O Bom Ladrão, com argumento de Fernando Sabino e Nelson Pereira dos Santos como provável diretor. Para João Manoel, a doação desse material à Casa de Rui Barbosa teve dois impulsos básicos: preservar a obra do pai e possibilitar o acesso tanto aos textos conhecidos como aos inéditos: ?Já há algum tempo eu pensava nessa doação e me pareceu que os dez anos de morte constituía uma data simbólica forte para efetuá-la. Tenho percebido também que muitos autores podem passar algum período no esquecimento para depois serem redescobertos. Mas para isso era preciso disponibilizar o material de forma organizada, que só uma instituição poderia oferecer.?Na Casa de Rui Barbosa, os textos de Bráulio Pedroso estarão lado a lado com acervos de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Hélio Pellegrino, Manuel Bandeira, Sérgio Porto e também de talentos mais recentes, como Cacaso e Caio Fernando Abreu. A expectativa da instituição, segundo Rosângela Florido Rangel, é que em dois anos todo o material seja lido, identificado e classificado. Embora João Manoel atribua ao pai uma ?organização básica? de seus textos, reconhece também que há uma ampla diversidade de material a ser identificado: ?Meu pai escrevia muito ? há um arquivo com algumas centenas de críticas literárias que escreveu para o jornal O Estado de S.Paulo no fim dos anos 60, peças, novelas, contos e muitas idéias que por um motivo ou outro não levou adiante. Quem se interessar em conhecer essas obras inéditas, agora terá uma possibilidade.?O criador prolixo, que marcou a televisão por uma linguagem coloquial eminentemente brasileira, em uma época em que os dramalhões mexicanos ainda eram a matéria-prima de novelas, foi também um autor profundamente vinculado com seu tempo. A peça As Hienas, por exemplo, encenada em 1971, era um libelo contra a ditadura, enquanto A Fula do Bucalão foi censurada antes de ser montada. No acervo, há ainda curiosidades como De Volta em Volta, peça escrita para ser encenada na cidade de Volta Redonda, o que ocorreu apenas uma vez, com direção de Antônio Pedro, dentro de um projeto de cultura popular. Aliviado por ter garantido a preservação da obra paterna, João Manoel enfatiza que a doação teve ainda uma motivação: ?É bem provável que muitos jovens não saibam quem foi Beto Rockefeller. E certamente terão um susto ao ler os capítulos dessa novela, assim como os de O Rebu ou Super-Plá, entre tantas outras, que continuam extremamente contemporâneas.?

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