Obra de Baselitz chega ao Brasil

Após circular por várias cidades latino-americanas, finalmente chega ao Brasil a mostra itinerante de Goerg Baselitz. As 15 pinturas e 81 gravuras do artista alemão, que poderão ser vistas a partir da noite dessa quinta-feira no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, traçam um amplo painel da obra daquele que é considerado um dos maiores artistas alemães do pós-guerra, tendo sido feitas entre as décadas de 60 e 90.Baselitz nasceu em 1938 no que viria a ser a República Democrática Alemã, mas mudou-se para o Ocidente aos 20 anos de idade. Sua obra é a de um sobrevivente que assistiu aos horrores da 2.ª Guerra (aos sete anos presenciou o bombardeio de Dresden) e viveu numa nação seccionada. Seguindo uma trajetória bastante pessoal (que posteriormente foi identificada como pertencente ao pós-expressionismo, apesar de Baselitz discordar dessa categorização), o artista prosseguiu num caminho árduo, buscou um equilíbrio - muitas vezes frágil - entre a figura e a abstração.Num esforço para eliminar o caráter narrativo da pintura liberar a representação de qualquer conteúdo, Baselitz não tirou as coisas do mundo real das telas, mas tirou-as de contexto, passando a pintá-las de cabeça para baixo. "Para mim, o problema consistiu em não criar quadros anedóticos, descritivos. Por outro lado, sempre detestei o nebuloso arbítrio da teoria da pintura sem objetos. A inversão dos motivos me deu a liberdade de me ocupar criticamente de problemas pictóricos", explica o próprio artista. "A cabeça nunca é um retrato, é simplesmente portadora das minhas idéias artísticas", resume ele, numa citação reproduzida pelo catálogo da mostra brasileira.Cabe lembrar, no entanto, que ao virar o mundo para baixo o artista também cria, mesmo que inconscientemente, uma interessante metáfora sobre o universo à sua volta. A intensidade dramática de sua obra também reforça esse gesto de ruptura e provocação. Como ele próprio diz, sua pintura inicial parecia feita a machado.Como escreveu Sheila Leirner acerca de sua retrospectiva no Beaubourg, há quatro anos, "em Georg Baselitz, o feio, o selvagem, o desmedido, a fusão entre o extremamente prosaico e o fantástico trata de um novo tipo de humanismo que sugere uma infância arcaica que se divide apenas entre a percepção e o ser, ou seja, o inconsciente, os mitos, a mística, os ritos."Se em seu percurso Baselitz procurou encontrar um lugar à margem dos discursos dominantes (como o tachismo ou o abstracionismo), nem por isso ele deixou de lado as formas clássicas de expressão artística. É interessante notar como procura um ponto comum entre a pintura e a gravura (infelizmente não há nenhum exemplo de sua obra tridimensional na exposição), em vez de desenvolver paralelamente dois tipos distintos de arte.A mostra itinerante, organizada pelo Instituto de Relações Culturais com o Exterior da Alemanha e trazida ao Brasil pelo Instituto Goethe vem circulando pela América Latina desde 1999. Ela fica no País até meados do próximo ano e, depois de São Paulo, poderá ser vista em Salvador, Curitiba e Porto Alegre, dando mais uma contribuição positiva para ampliar o circuito de exposições de arte para além do restrito eixo Rio-São Paulo.

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