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Oásis afetivos

Em tempos de carnificina política, o jeito é buscar a doce companhia dos amigos

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 02h00

A nostalgia não é mais o que ela era, disse o poeta Valéry tanto tempo atrás, e segue me dizendo, nesta manhã de dia de eleições em que saio para a rua sob chuva miúda, agora como advertência contra a tentação de saudosismo eleitoral. É preciso reagir, para que daqui a pouco não me veja repetindo outro poeta, o espanhol Jorge Manrique, para quem todo tempo passado foi melhor. Não foi mesmo, eu sei – mas não há como não me lembrar de outros dias de eleições, alguns deles bem crispados, sujeitos até a troca de insultos e sopapos. Não me lembro, porém, de algum que tenha sido pedregoso como este, e olha que mal está começando. Aquele dia de 1989, por exemplo, em que nos coube decidir entre Lula e Collor, embate farto em baixarias, foi pinto, como outrora se dizia, se posto ao lado deste 7 de outubro de 2018. 

Será que estou dramatizando?, penso enquanto entro no ônibus no meu bairro de Perdizes – e no interior semivazio vou encontrar um falatório armado.

Não é briga; lembra um torneio de reclamações, protagonizado por duas senhoras exaltadas, visivelmente carentes de plateia mais participativa. 

Na falta de interlocutores, uma delas me cutuca o braço e, veemente, conta que vai bater na porta da Justiça Eleitoral, pois na hora de finalizar seu voto a urna eletrônica empacou. Depois de apertar a tecla 1, calcou a 7, repetidas vezes – mas cadê que o 7 respondeu? Coisa muito esquisita, muito suspeita, insinua a criatura – e, como nada digo, trata de ser mais explícita: seu candidato não estava blefando ao profetizar tramoias eleitorais armadas para impedir sua vitória. Não adiantou, diz a cidadã, reclamar com os mesários, com certeza petistas, dispostos a fazer disto aqui uma Venezuela.

Resisto à tentação de argumentar que o 7, em seguida ao 1, pode não ser a melhor combinação, não exatamente por compor com ele, no jogo do bicho, o número que designa um primata, e sim por provocar na máquina algum engulho cívico-eletrônico. Nem um pouco disposto a comprar briga, viro para o lado – e eis que sou fisgado pelo olhar indignado da outra reclamona: não bastassem as urnas sabotadas, brada a criatura, agora tem índio com direito a voto! 

Desta vez, não consigo ouvir calado, e dou uma encorpada nos decibéis, enquanto o ônibus encosta no meu ponto: a senhora não está sabendo que já tinha índio no Brasil quando aqui chegou o homem branco? 

*

A esta avançada altura da vida, estou pra lá de escaldado, mas volta e meia caio na esparrela de provocações políticas, mordendo iscas no Facebook e em grupos do WhatsApp. 

No primeiro caso, bastaria eu me lembrar que entrei ali com o propósito único de divulgar meu trabalho de cronista: quem vê face, vê book, achava eu – e, no entanto, quando dou por mim, estou postando prosa ainda mais efêmera. Pitacos. Graçolas. Alfinetadas pretensamente espirituosas. 

Talvez por força dos tais algoritmos, já quase não encontro ali quem possa alfinetar, ainda que seja pelo gosto da brincadeira, pois nos grupos virtuais de “amigos” é enorme a probabilidade de estar falando com quem vai concordar comigo. Haja mesmice. O mesmo se diga dos grupos do WhatsApp, ainda mais restritos. Nestes, vou aprendendo a prudência de ficar calado.

Ainda não cheguei lá. Quando, na paisagem de platitudes e déjà vu, pinga ofensa ou provocação, ou, ainda, algum silêncio farpado, acabo desperdiçando energia até mesmo para decidir não dar o troco, para desembarcar ou não. Quem nunca ferveu ao “bloquear” uma pessoa, ao desfazer “amizade” no Facebook, ao saltar fora de uma confraria? 

Só espero não chegar ao extremo paranoico de um amigo, esse de verdade, que me confidenciou estar no Face e no WhatsApp exclusivamente em legítima defesa...

*

Nada como o convívio presencial, essa coisa cada vez menos encontradiça num tempo em que proliferam até mesmo relações sexuais à distância – nas quais, aliás, para o bem e para o mal, os únicos vírus que se pode contrair são aqueles do computador. Tenho um amigo que vive numa cidade pequena do interior, onde, à noite, segundo me contou, costuma jogar com os camaradas. Tênis e calções numa quadra de esportes? Nada disso: cada qual na sua toca, olhos sequestrados pela tela.

Neste momento tenebroso em que paixões políticas dizimam amizades, é um pouco como náufrago que eu, tendo deixado há pouco minha seção eleitoral, trato de me juntar a um grupo de amigos, desses de carne e osso, num imprescindível oásis afetivo. Não importa que o ponto de encontro (na atual borrasca, quase digo escaler) seja a Padoca Ruim, assim rebatizada com base numa profusão de evidências, em especial sua alarmante feiura e a ensandecedora cacofonia de vozes, louça a retinir e liquidificador a toda. 

Só estarmos aqui, rendidos à escolha inapelável de um dos comparsas, que fez do lugar seu segundo (ou primeiro?) pouso, é um bálsamo para alma avariada na carnificina ideológica. Dou carga à bateria, venho para casa, ligo a TV e, para fechar com alívio um dia que, por dentro e por fora, esteve coberto de nuvens, fico sabendo que o pior foi afastado, nem que seja por três semanas. 

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