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Renato Mangolin/Divulgação
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O voo livre de Angel

Angel Vianna celebra 82 anos de vida e 62 de carreira com ...Qualquer Coisa a Gente Muda

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Nada mais Angel Vianna do que o nome do espetáculo que estreia hoje, às 21h30 no Sesc Belenzinho, celebrando 62 anos de carreira e 82 de vida, ...Qualquer Coisa, A Gente Muda. Porque Angel foi e continua sendo uma referência do que seja a disponibilidade para uma transformação permanente. Com essa característica singular, tornou-se peça central no desenvolvimento da dança no País. Seu novo espetáculo nasceu do propósito de fazer com que as novas gerações saibam disso.

Tudo começou quando Adriana Banana, diretora artística do Fórum Internacional de Dança-FID, transformou Angel Vianna em um dos eixos de sua progamação em 2010, convidando-a para montar novo trabalho. Angel chamou Maria Alice Poppe, com quem já havia dançado Impromptu, criação de Alexandre Franco nascida também por convite de outro Festival, o Panorama de Arte Contemporânea, do Rio, em 2002. Conversaram muito sobre quem iriam convidar para ser o coreógrafo e Maria Alice sugeriu que fosse o carioca João Saldanha. "Angel ficou na dúvida, achou que ele não iria aceitar, liguei e ele disse sim na hora. E desta vez foi bem diferente, porque eu e o Alexandre somos "crias" dela, e o João vem de fora", contou Maria Alice, em entrevista por telefone.

João Saldanha disse, na entrevista também por telefone, que recebeu o convite como um desafio para "não cair no mesmo lugar que Angel já havia habitado com Maria Alice". Faltavam apenas 40 dias para a estreia. Os três se reuniram pela primeira vez na casa de Angel, começaram a conversar e João, olhando em volta, reparou na mesa e sugeriu que usassem uma em cena. Angel respondeu que sim, e completou: "Qualquer coisa a gente muda". No mesmo instante, João reconheceu que a futura obra acabava de ser batizada. "Era um bom nome porque tinha tudo a ver com o histórico de desafios constantes da Angel."

Foram 35 ensaios até a estreia, "mas pareceu um ano de trabalho, de tão intenso, porque o João sempre trazia questões profundas. Após dois meses, retomamos o trabalho para a estreia no Sesc, no Rio, e pudemos aprofundar o que já estava pronto. E agora, nos ensaios para São Paulo, pudemos ver quanto nós três amadurecemos nesse processo", comenta Maria Alice.

João relembra haver logo percebido que seria impossível criar um vocabulário para Angel e decidiu propor o espaço como tema a ser explorado. "Os movimentos de Angel são impregnados pela longa experiência dela e o que conseguimos foi que o centro deixou de ser o mesmo. As pessoas mais velhas, quando se disponibilizam a estar em cena, trazem algo de sua história que fica lá, na pele delas. Angel não se sente velha, mas há um tipo de densidade que só vi no Kazuo Ohno. Me falaram da Renée Gumiel, mas não a vi dançando, infelizmente."

O público também tem a experiência do espaço. Os primeiros 150 que chegarem vão explorá-lo guiados por Maria Alice. São oito minutos no palco, até que ele ganhe luminosidade e sonoridade. Quando as cortinas se abrem, Angel está sozinha, sentada no fundo da plateia iluminada. Essa inversão dos lugares de atuação indica o propósito que vai se instaurar.

"Há um contexto que é o dela, e que sempre vai trazer o Klauss e o Rainer (João se refere ao ex-marido, Klauss Vianna, e ao filho, Rainer Vianna, ambos falecidos). O que ela fez antes sempre esteve voltado para a violência das suas perdas, para a questão da solidão. Eu quis escapar de qualquer traço deprê, daí a escolha de uma cena simples e justa. Uma na frente da outra, criando uma competição meio fraterna. Mas, claro, aquele espaço fica cheio das projeções dela, que acaba fazendo valer os seus mortos na sua figura de bailarina."

Angel, Klauss e Rainer Vianna formam o triunvirato que modificou a pedagogia da dança no Brasil a partir dos anos 70. A escola que Angel fundou em Botafogo, e depois transformou em Faculdade, tornou-se um dos renomados endereços da dança no País.

"Angel é uma pessoa que virou instituição e, no Rio existe uma tietagem em torno dela que distorce um pouco o que realmente importa. Felizmente, este trabalho ficou também com um lado bem-humorado, no qual Angel faz valer seu lado bufônico, mesmo sem se desfazer do lugar professoral, que está sempre ali."

Maria Alice chama a atenção para importante aspecto simbólico presente no circuito que ?Qualquer Coisa a Gente Muda vem fazendo: "Estreamos em Belo Horizonte, dançamos no Rio e agora estamos em São Paulo. Está faltando Salvador para que se complete o mapa no qual Angel e Klauss atuaram deixando suas marcas em tantas pessoas".Os figurinos são de Marcelo Braga, Adelmo Lapa assina a iluminação. Na trilha sonora, a Ricercata para acordeon e piano e o Cello Concerto, de Gyorgy Ligeti.

...QUALQUER COISA A GENTE MUDA

Sesc Belenzinho. R. Padre Adelino, 1.000, 2076-9700. Hoje e sáb. 21h; dom., 18h. R$ 6/R$ 24.

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