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O voo do Phoenix

Banda francesa de rock independente, que virá ao Brasil em novembro, chega aos andares de cima do pop

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

2010 será lembrado como o ano em que o indie rock chegou de vez à arena. Um marco feliz, fruto da revolução dos downloads, que derrubou gravadoras e deixou a indústria em pânico na última década, mas trocou o sistema antigo por uma forma mais democrática (que vai além das salas de reuniões das gravadoras) de se avaliar o gosto do público.

Eis que uma banda francesa, provedora de um pop sutil, influenciado pelo minimalismo de Steve Reich e arquitetado à perfeição com arranjos leves e elegantes como uma estrutura de fibra de carbono, chega ao Madison Square Garden para um show nesta quarta-feira.

Não será a primeira, tampouco a mais marcante vez que isso acontece este ano: o Arcade Fire, baluartes do gênero, lançaram The Suburbs no templo do pop em agosto, acompanhados por um mês na crista da Billboard. Mas o grupo de quatro garotos de Versailles que vem ao Brasil em novembro para o festival Planeta Terra (ingressos para os shows já estão esgotados) fica em digníssimo segundo lugar: foram a banda mais esperada do festival de Coachella, tiveram música adaptada para o vídeo game Guitar Hero e o último disco, Wolfgang Amadeus Phoenix, de 2009, traz três ou quatro canções que, como nos momentos mais belos do cancioneiro pop, carregam a alma como se estivesse sendo içada por uma revoada de andorinhas. O Estado conversou com o vocalista Thomas Mars, porta-voz da banda e marido da cineasta Sofia Coppola, sobre o disco, o show e o processo criativo do Phoenix.

A trajetória de vocês é curiosa. Foram de uma banda francesa que fazia covers de Hank Williams e Prince ao estrelato. Aprenderam muito com isso?

Sim. Tocávamos coisas que os franceses não devem tocar. Mas curtíamos muito. Escolhíamos um monte de coisas que provavelmente soavam esquisitas para o nosso público - em geral, gente bêbada em casas noturnas escuras. Mas eu sempre fui apaixonado pelas letras de Hank Williams, pelo modo com que são puras e contagiantes, pelo modo com que ele usa as vantagens da língua inglesa perfeitamente.

E já havia uma semente estilística de o que viria a ser o Phoenix nessa época?

Nós crescemos numa sociedade em que gosto e estilo eram mais importantes do que a música, então não se podia misturar muito as coisas. Você tinha de ser gótico, ou roqueiro, ou mano. A primeira coisa que nos juntou foi que queríamos fazer um som com influências diferentes e naquela época, pouca gente pensava assim. O Beck era o único cara que misturava influências de todos os cantos.

Vocês batizaram o disco de Wolfgang Amadeus Phoenix, escreveram uma música que parece homenagear Franz Liszt e gravaram o clipe no teatro de Wagner, em Bayreuth. Por que tantas referências à música clássica?

Não queríamos fazer um álbum conceitual. Quando nos juntamos, parecia haver algo que gostávamos sobre a música clássica que tinha passado para o disco. O contraponto das melodias de Bach é, para mim, uma das formas musicais mais puras. Chega muito perto do minimalismo, que tanto ouvimos e gostamos. Há pouca distância entre Bach e compositores do século passado como Steve Reich, Brian Eno e o pessoal do krautrock.

Vocês são a segunda banda de rock independente a fazer o headline do Madison Square este ano. Almejavam mesmo tanto sucesso?

Quando começamos a banda, fazíamos música de um modo egoísta, para nossa própria satisfação, sem nos preocuparmos com o sucesso. Crescemos em Versailles, que é uma cidadezinha muito quieta, então queríamos fazer barulho e agradar o menor número de pessoas possível. Agora o intuito é o mesmo, mas por algum motivo - e há muita beleza nisso - a nossa música chega sem esforço às pessoas que sentem e pensam do mesmo jeito.

O público que lota uma arena é bem diferente do público com que vocês estão acostumados. A postura da banda muda com isso?

Eu espero que não. Pelo menos fazemos tudo pensando em o que acharíamos do som se estivéssemos na plateia. Mas é inevitável que um público diferente compareça a esses lugares. Sempre vemos muitos mauricinhos e gente com quem não temos muito a ver nos shows. Isso incomoda, mas é o que acontece quando você cresce. Decidimos fazer os shows do Madison Square e do Hollywood Bowl de uma maneira que nos interessasse, não como "o próximo passo" da nossa carreira. O show é mais como uma performance artística do que um megaevento. Mas nada se compara a tocar em um inferninho, para o público certo.

E vocês pensaram grande? Algo como fogos de artifício?

Não (risos). Nada de fogos. Há muito tempo atrás vimos uma exposição de Dan Flavin, que trabalha com néon, em uma apresentação de Steve Reich. Vamos roubar a ideia dele.

Em um dos ótimos "making ofs" sobre o novo disco que estão no site da banda, você diz que o artista tem de transcender a dor interior para chegar ao público. O processo criativo do Phoenix é assim?

Eu não consigo mais pensar dessa maneira. Mudei de ideia (risos). Talvez os meus artistas prediletos criem assim. Terminam um relacionamento e fazem um ótimo disco porque a criatividade deles vem daquele lugar escuro, visceral. Mas no Phoenix, a química entre os músicos gera a criatividade. Quando compomos, a primeira coisa que vem à cabeça é a mais previsível, a que o cérebro se sente mais confortável em ouvir. Essas sempre são as mais chatas, então temos de cansar nossos corpos e nossos egos para chegarmos aos estados mais criativos. No fim, as coisas que achamos desinteressantes acabam virando as preferidas. É um processo de sorte, como jogar na Mega Sena ou pescar. Mais isso do que psicoterapia. Não há reuniões de pauta. Nosso trabalho é fazer colagens.

Lisztomania é uma das canções mais tocadas em festinhas por aqui. Como foi a criação?

O refrão veio primeiro. Um dia antes da nossa última ida à América do Sul, eu e Deck d"Arcy (baixista) a mostramos para o restante da banda. Fora isso, não lembro qual é o DNA ou a estrutura da canção. Nós nos perdemos no estúdio e nunca lembramos quem compôs o quê. É um sentimento agradável, principalmente porque nos sentimos parte de uma democracia. Mas se tivermos problemas de direitos autorais, será um pesadelo (risos).

O último disco mostra nitidamente um amadurecimento estilístico. Você consegue ver isso?

De jeito nenhum. Estou muito perto da música. É como ver um filho crescer. Você só percebe que ele mudou quando viaja por duas semanas. Nós nunca paramos o Phoenix, nunca pulamos do trem para ver quanto ele estava correndo.

FEITOS SONOROS

Trilha sonora

Faixas do último disco dão o tom de Somewhere, o novo filme de Sofia Coppola, que venceu o festival de Veneza.

Perfeccionistas

A banda gravou 700 trechos de canções até chegar às 10 que fizeram parte do disco.

Encerramento

O show no Planeta Terra será o último da turnê.

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