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O Voltaire da Califórnia

Tanto nos habituamos a aproximar George Orwell de Albert Camus - e lamentar que um súbito achaque de Camus tivesse impedido que os dois se conhecessem pessoalmente em Paris, em 1945 -, que acabamos negligenciando a maior proximidade entre Orwell e Jack London. 

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 02h00

As experiências de Orwell como pobretão voluntário revividas em Na Pior em Paris e Londres foram, de certo modo, inspiradas pelo “aprendizado na indigência” de London nas estradas e ferrovias americanas e (disfarçado de marinheiro) no East End londrino, matérias-primas de, respectivamente, A Estrada e O Povo do Abismo, esta uma contundente crítica à fome e à miséria no coração do Império Britânico. Ambos se identificavam como socialistas democráticos, produziram ensaios e ficção, foram correspondentes de guerra, não viam com otimismo o futuro da humanidade, e morreram com menos de 50 anos de idade.

Ao montar uma nova coletânea de ensaios de Orwell, a ser publicada no próximo ano, encontrei dois textos sobre London que me haviam escapado, ambos escritos e publicados durante a Segunda Guerra: um para o quinzenário londrino Tribune, o segundo para prefaciar uma antologia de contos do escritor californiano. O primeiro ensaio avalia as profecias contidas em O Tacão de Ferro, a distopia de London cuja influência sobre 1984 o próprio Orwell nunca negou. 

Lançado em 1907, quase 80 anos antes da consagrada distopia orwelliana, O Tacão de Ferro (traduzido pela Boitempo) imaginava como a América seria dali a sete anos, subjugada a uma ditadura protofascista (ou fascista avant la lettre) consolidada pelos republicanos e a serviço de uma oligarquia financeira que com tropas de assalto tão leais e eficientes quanto as futuras sturmtruppen nazistas reprime qualquer tentativa de retomada do poder pela classe oprimida. 

Orwell considerava ingênuo supor, como London supunha, que uma “revolução proletária” pudesse eclodir em países altamente industrializados, como Estados Unidos e Inglaterra. Mas num ponto os dois concordavam: o capitalismo, ao contrário do que os marxistas previram, não seria devorado por suas próprias contradições, perpetuando-se no poder através de vastas e impessoais corporações, que desenvolveriam uma espécie de “socialismo pervertido”, sacrificando muitos dos seus privilégios (vão-se os anéis, mas ficam os dedos) para preservar o seu status de arrimo “superior” da civilização. 

Embora O Tacão de Ferro contraditasse a escatologia marxista, Lenin e Trotsky adoravam o romance. (Orwell conta que em seu leito de morte Lenin vivia pedindo a Nadezhda Krupskaya que lhe lesse um conto de London.) Kurt Vonnegut Jr. estreou como romancista com um pesadelo futurista (Utopia 14) confessadamente marcado pela leitura de O Tacão de Ferro. Os alemães o mantiveram em suas cabeceiras até 1933, quando os nazistas acrescentaram toda a obra de London àquela pira de livros indesejáveis armada em Berlim, com o aval de Goebbels. 

Orwell refuta a tese de que London previu a ascensão de Hitler. Seu vilão não era personalizado nem os agentes da opressão reduzidos a uma casta de “cínicos patifes, sem honra ou coragem”, unicamente interessados em encher a burra. Como um ficcionista “apressado, sensacional, e sob certos aspectos infantil”, pôde ter uma visão mais sutil da plutocracia triunfante que os seus companheiros socialistas?, pergunta-se Orwell. E na frase seguinte responde: London conseguiu antever a ascensão do fascismo por ter um, por assim dizer, temperamento fascista. Sabia como os plutocratas se comportariam quando se sentissem seriamente ameaçados pela escumalha ressentida, revoltada e à procura de um “homem forte” que a empolgasse. 

London teria sido um dos primeiros a prever a vitória de Donald Trump - sem no entanto apoiá-lo, é claro -, fazendo coro com Sinclair Lewis, Richard Rorty, Philip Roth, Edward Luttwak e Noam Chomsky, que também anteviram a possibilidade de um duce vir a empolgar a massa de desvalidos da América idiotizados pela ignorância e o rancor - além de ignorados pela elite intelectual e política como se fossem meros figurantes da grande guerra cultural que há décadas a absorve. 

London, entusiasta da violência, da força física e da natureza em estado puro, foi um homem de ação como poucos escritores lograram ser. Perto dele Hemingway parecia quase um intelectual de gabinete. Primeiro americano a ganhar US$ 1 milhão com o ofício de escrever livros, produziu pelo menos três clássicos do romance de aventuras para todas as idades: O Lobo do Mar, Call of the Wild (que Monteiro Lobato, seu pioneiro divulgador entre nós, traduziu como O Grito da Selva e outros como O Chamado da Floresta e O Chamado Selvagem) e Caninos Brancos. 

Não me canso de repetir que Caninos Brancos, na tradução de Lobato para a Companhia Editora Nacional, foi minha primeira paixão literária e seu autor uma espécie de Errol Flynn das letras para mim. Mais do que isso: London foi o meu primeiro Voltaire. Por intermédio de seus cães lobos, como Caninos Brancos (em inglês, White Fangs), e heróis bípedes como Wolf Larsen, o “lobo do mar”, aprendi mais sobre as coisas da vida e os mistérios da natureza do que outros livros de maior ambição e pompa tentaram me ensinar. 

O amor pelos animais fez de London um ativista contra a crueldade praticada em bichos do mato e citadinos. Comprou briga com vários donos de circo e diretores de zoológicos. Armaria um escândalo se soubesse que no maior país da América do Sul rituais de maus-tratos a animais como a Farra do Boi são considerados manifestações culturais. 

Em 1907, mal A Estrada, também traduzido pela Boitempo, chegou às livrarias, London deixou o Partido Socialista a que se filiara na Califórnia e zarpou em seu iate para os Mares do Sul, onde pretendia navegar durante sete anos. Dizendo-se “desiludido com o estado geral do país”, escreveu al mare um romance autobiográfico, “Martin Eden”, cujo protagonista, um escritor agastado com as amofinações da fama e a fatuidade burguesa, suicida-se no Pacífico. Tal desfecho induziu alguns dos contemporâneos de London a desconfiar que ele também dera cabo da vida, exagerando na morfina que tomava para suportar as dores que o atormentaram em suas últimas semanas de vida. 

Oficialmente, London morreu de complicações (disenteria, uremia) provocadas e potencializadas pelo alcoolismo. Em 22 de setembro de 1916, aos 40 anos.

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