O visionário Noguchi em mostra única

Todas as formas de expressão do artista nipo-americano, morto em 1988, estão reunidas no Instituto Tomie Ohtake

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2013 | 02h07

Pense num nome da vanguarda americana do século passado. Pode ser a coreógrafa e dançarina Martha Graham, o compositor John Cage ou o arquiteto e designer Buckminister Fuller, criador da cúpula geodésica. Com todos eles trabalhou o escultor e designer Isamu Noguchi (1904-1988), homenageado com uma exposição de 44 obras aberta ontem, no Instituto Tomie Ohtake, onde fica em cartaz até 21 de julho. Filho ilegítimo do poeta Yone Noguchi (1875-1947), o primeiro japonês a publicar poesia em inglês, e da escritora norte-americana Léonie Gilmour (1873-1933), cuja vida foi filmada há três anos por Hisako Matsui, Noguchi passou a vida rodeado por celebridades, das quais o escultor romeno Constantin Brancusi (1876-1957), de quem foi assistente, com certeza foi sua maior influência.

Curador da mostra, Matt Kirsch conta que Noguchi conheceu Brancusi por acaso, apresentado por um amigo, em Paris. "Aos 23 anos, ele estava desiludido com a arte acadêmica e, ao ganhar uma bolsa da Guggenheim para estudar na França, se ofereceu como auxiliar para aprender escultura com Brancusi." O resultado dessa curta temporada de seis meses (em 1927) com o grande mestre da escultura moderna, cuja abstração enfatiza a geometria, pode ser visto em várias peças da mostra no Instituto Tomie Ohtake, sendo o exemplo mais evidente a peça Pregnant Bird (1958), em mármore grego, que remete automaticamente ao Pássaro de Brancusi, criado em 1923.

Noguchi aprendeu a cortar e polir o mármore com Brancusi, mas não elegeu o nobre material como centro de sua produção. Há na mostra esculturas de alumínio, bronze e pedra comum, além de riquíssimo material sobre suas múltiplas atividades em outras áreas. Mais conhecido como autor da icônica "mesa lunar" (1948) - com tampo de vidro oval e pés de madeira, até hoje considerada o exemplo mais perfeito de equilíbrio entre arte e design-, Noguchi estabeleceu com a companhia de Herman Miller (com quem trabalhou Charles Eanes) uma relação duradoura para produzir móveis e luminárias (uma delas exibida na mostra). "Essa multidisciplinaridade inclui intervenções como cenógrafo e figurinista de peças e balés", lembra o curador Kirsch, escolhendo como a melhor fase do artista o período compreendido entre 1943 e 1949, quando instalou seu estúdio em Greenwich Village, hoje o museu que leva o seu nome.

É dessa época a série de esculturas biomórficas das quais a mais conhecida talvez seja Kouros, exposta em 1946, que ajudou a confirmar a reputação de Noguchi como um dos principais escultores abstratos dos EUA. Kouros, também na mostra paulista, faz parte de uma série de 15 históricas esculturas (das quais uma versão maior, de mármore rosa, está no Metropolitan). É um sofisticado exercício de engenharia, que faz referência às esculturas gregas arcaicas de efebos numa releitura que une a modernidade de Jean Arp ao cubismo de Picasso e à arte oriental.

Esse transculturalismo é igualmente visível na leitura particular que Noguchi fez de Shakespeare, ao desenhar os cenários de uma polêmica montagem de Rei Lear protagonizada por John Gielgud em 1955. Desenhos do cenário estão na mostra, revelando como Noguchi viu na tragédia shakespeariana uma simétrica relação entre antípodas, usando figuras geométricas elementares para representar o castelo de Lear.

"Outro exemplo do pioneirismo de Noguchi foi sua relação com o meio ambiente, criando jardins e playgrounds numa época em que não se falava muito em ecologia", diz o curador, lembrando que as primeiras experiências de intervenção no espaço público remontam aos anos 1930, quando, ao voltar aos EUA, em pleno período da Depressão americana, Noguchi foi obrigado a esculpir dezenas de bustos para sobreviver, Sobrou, assim, tempo para pensar projetos utópicos, como o monumento a Benjamin Franklin (1933), que ficou décadas irrealizado, do qual a mostra tem um protótipo de cromo, bronze banhado a níquel e alumínio. Uma pequena obra-prima de síntese e grande criatividade formal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.