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O vírus que coroa o medo

Pragas despertam velhos ódios e dão falsas bases para xenofobias

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h10

Eu estava com um grupo de brasileiros no interior do Camboja. Em uma placa de beira de estrada havia um aviso sobre dengue. Instalou-se o pânico. Uns diziam que deveríamos voltar ao Brasil. Surgiu a sugestão de mergulhos em repelentes. Peguei na internet os dados daquele momento sobre mortes por dengue no país que visitávamos e aqui no Brasil. Havia muito mais risco no nosso ponto de partida: São Paulo. O que provocava o medo?

A ansiedade diante de epidemias é histórica. Nos pesadelos, a galopar, um dos quatro cavaleiros do Apocalipse é a peste. O francês Jean Delumeau estudou a história do medo no Ocidente que inclui, há séculos, o horror a doenças. Cólera, varíola, gripe espanhola, HIV. Pragas despertam velhos ódios e dão falsas bases para xenofobias. Também existe a xenofobia geográfica: muitas doenças têm raízes no Oriente e, assim, atualiza-se o “perigo amarelo” de tempos em tempos. O mal é sempre externo.

Ao que tudo indica até agora, a temida epidemia de coronavírus é menos mortal do que muitas doenças com as quais convivemos sem pânico. O medo é irracional como o horror a baratas: não nasce de base estatística. Todo ser que tem fobia a baratas (catsaridafobia) sabe que não há óbitos diretos derivados do enfrentamento entre um ser humano e uma barata. Nosso cérebro não é racional em todas as suas camadas.

O vírus da dengue é conhecido, como são os do sarampo e da caxumba. São vírus com nome e sintomas tradicionais. Porém, a famigerada covid-19 é doença do ano passado, nova pois, e vem de uma província da China. Até sua origem é exótica: teria sido transmitido pelo pangolim? Funcionará o meu chá de alho, o mel com agrião ou o tablete efervescente de vitamina C? Ninguém sabe de qual família é aquele coronavírus, enquanto que a caxumba cresceu conosco, é conhecida no bairro e meus avós já tinham relações sociais com ela.

Não sei se o vírus vencerá a espécie humana, sempre o frágil “caniço pensante” de Pascal, dobrado por seres invisíveis a olho nu. Arrisco um palpite: se você não morreu de Sars (causada por um outro coronavírus), de ebola, de gripe suína ou com o calendário maia em 2012, há uma chance de sobreviver a mais uma onda de fim de mundo.

O medo exagerado de qualquer coisa existe para vender soluções para você. Pessoas apavoradas gastam muito. Medo é uma das coisas mais lucrativas já inventadas pelo ser humano. Insegurança esvazia carteiras e ajuda a inclinar cabeças. Aceitamos tudo se estivermos apavorados.

Todo caniço, um dia, deixará de existir. Existe certa dignidade em procurar não tremer demais até lá. 

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