O vinho português Periquita vem renovado

Ele é o cabeça da empresa que faz o tinto europeu mais vendido em terras brasileiras, o Periquita, produzido desde o século 19. António Soares Franco, presidente da vinícola portuguesa José Maria da Fonseca, esteve no País durante a semana passada para falar das mudanças em seu vinho mais famoso, materializadas na safra 2000: por fora, novo rótulo e nova garrafa, ao estilo de Bordeaux; por dentro, um vinho feito não somente com a uva Castelão, como em anos anteriores, mas com pequenas partes de Aragonês e Trincadeira (7,5% cada). No Brasil, o vinho está presente de empórios sofisticados a supermercados populares e possui até uma confraria, da qual fazem parte a apresentadora Hebe Camargo e a cantora Fafá de Belém. Nosso mercado responde por 8% das exportações, o que não seria por acaso: como conta o próprio Soares Franco, há muitas afinidades entre este tinto e o paladar brasileiro. Por que o Periquita mudou? A idéia era mantê-lo atual, conservar as qualidades do produto, já que a marca tem mais de 150 anos, porém adaptá-lo aos nossos tempos. As atualizações foram feitas com base em pesquisas realizadas na Suécia, um dos nossos grandes mercados, e em Portugal. Com relação às castas utilizadas, adicionamos a Aragonês e a Trincadeira para conseguir um vinho com mais leveza, mais frutado e mais rico de aromas, chegando a resultados que lembram o Periquita feito nos anos 50 e 60. E o sucesso especialmente na Dinamarca, Suécia e Noruega, a que se deve? Eles gostam de vinho e creio que têm espírito aberto para experimentar, para procurar novos sabores. Por outro lado, percebe-se naqueles países um grande interesse pela gastronomia, há todo um movimento por lá em torno deste tema. Eu, para mim, tenho um palpite que o Periquita consegue ainda uma boa harmonização com alguns pratos típicos dos escandinavos, especialmente a carne de rena. Falando em harmonização, o Periquita vai bem com que pratos brasileiros? Com muitas coisas, a gama de possibilidades é extensa. Pratos com carne de boi e comida italiana são exemplos. Eu iria mais longe, para usar exemplos tipicamente brasileiros: acho que casa com o churrasco e feijoada. Com bacalhau também? Claro, e isso me lembra uma história. A Fafá de Belém, que é confreira do Periquita aqui no Brasil, costuma contar que, numa viagem a Portugal, foi a um restaurante e escolheu bacalhau. Ao pedir uma sugestão de vinho, o garçom falou: "temos aqui o Periquita". Ela soltou uma de suas sonoras e conhecidas gargalhadas e ficou lá a rir. Achou engraçado o nome Periquita. Essa combinação em particular é assunto que divide algumas opiniões. Fale mais a respeito, já que estamos perto da Páscoa, época em que se consome mais bacalhau por aqui. Nós, em Portugal, gostamos sempre do bacalhau com os tintos. O Periquita, por exemplo, vai bem com o clássico ao forno, assado com azeite e batatas, pimentões, ovos, azeitonas. Aqui no Brasil, percebe-se que há uma preferência pelos brancos. Os vinhos brancos, para conseguir uma boa harmonização, precisam ter bom corpo e estágio em madeira, para ganhar mais complexidade.

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