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O vigor masculino

Creio ser um excelente momento para pensar a masculinidade, suas glórias e tragédias históricas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2018 | 03h00

O ano está em seus estertores. Esta será a última coluna de 2018. Com o réveillon, gostaria de enterrar os preconceitos, violências, indiferença, corrupção, abismos sociais e desvalorização da cultura. Creio ser um excelente momento para pensar a masculinidade, suas glórias e tragédias históricas. 

Algumas de nossas primeiras manifestações artísticas, como espécie, foram estatuetas de formas femininas, exaltando seios fartos e quadris largos, símbolos da fertilidade, da quase sobrenatural capacidade das mulheres de gerar e nutrir vida. Talvez indiquem que nossas arcanas formas gregárias tinham estruturas matriarcais ou que, ao menos, davam imenso destaque e poder ao feminino. Quando a civilização se instaura, representações do masculino tornam-se mais frequentes. São reis, guerreiros poderosos. Monarcas assírios são mostrados matando leões e homens, frente a frente. Uma dualidade se instaurava: incapaz de gerar a vida, o masculino parecia ter prazer em ser retratado (isso mostra a vontade ser lembrado para todo o sempre) como aquele que tolhe a vida. O verdadeiro homem seria um matador, dizem estelas e pinturas.

Romanos criam a ideia de virilidade: vir, o homem, era uma figura pública, associada a virtudes de dominação e autocontrole. Dono de discurso afiado e espada mais ainda. Não necessariamente se associava a virilitas à sexualidade. Gregos e romanos praticavam pederastia e dois homens praticando sexo era algo visto com relativa naturalidade. Júlio César era o conquistador da Gália, poderoso general e político de imensa influência, teve um filho com Cleópatra, mas também era conhecido como a “rainha da Bitínia”, por seu romance com o rei Nicomedes Filopátor. Exemplo maior da areté grega, da virtude encarnada, do orgulho em morrer em batalha, Alexandre ou o mítico Aquiles tinham coragem, autocontrole, poder e amantes do mesmo sexo. O homem clássico parecia amar seu igual.

O masculino entra na Idade Média se imaginando como uma abnegação. O homem abdica do lar, da família, de tudo. O faz em nome de altos ideias. Artur e o Santo Graal, Rolando e o combate aos sarracenos, El Cid campeador sobre um cavalo, ganhando batalhas mesmo depois de morto. Esses homens lutavam em nome de Deus, da glória, da fama, da família e da honra. Estavam dispostos a se sacrificar em nome desses ideais, logo, abnegados. O cristianismo acrescentou o tabu da homossexualidade: agora ela deveria ser praticada às escondidas. Não some jamais, porém vira pecado. É mais um desvio a ser combatido pelo cavaleiro viril.

A vida cortesã doma o ímpeto bélico. Os corpos ganham elasticidade e a elegância dos salões e dos bailes. O ideal da virilidade ganha camadas de maquiagem, perucas, roupas bufantes, perfumes e gestos teatrais. O homem exemplar domina a etiqueta e a civilidade palaciana. No lado de fora do castelo, rivaliza outra lógica de virilidade que, após as revoluções liberais de fins do século 18, tomam o poder e se impõem como modelo.

A lógica burguesa da virilidade incorporava o valor do trabalho, do suor. O macho era agora um provedor bem-sucedido, a arena era a dos negócios. Roupas austeras, escuras, somem plumas e maquiagens. Trata-se da chamada “grande renúncia”. O verdadeiro homem abdica da vaidade. A moral vitoriana reforçou séculos de dissociação entre prazer, sexo e esposa. Reprimiu corpos e criou padrões altíssimos para o homem que chegou ao século XX como um misto de guerreiro, empreendedor, cortesão e pai de família (que provê e não convive).

Vieram as carnificinas das Guerras Mundiais no século XX. Pouco antes da Primeira, exaltava-se o poder regenerador da batalha, do sangue derramado, o romantismo e a camaradagem na ponta de baionetas para os Futuristas defensores da hecatombe. Pensadores como Freud decretam o mal-estar da civilização falocêntrica e seus valores de dominação e sujeição. Depois da Segunda Guerra, o mundo passa por novas ondas feministas, povos subalternos desmontam ordem imperiais seculares e gerações de contracultura questionam a autoridade do outrora incontestável pater familias. O macho latino perde ímpeto, embora siga com coração batendo.

O século 21 aponta um novo modelo do masculino. O verdadeiro homem é alguém solidário, empático, positivo, presente. Percebe a construção histórica e violenta da masculinidade e quer outra roupa. 

Termino com uma história real, acontecida com minha amiga e colega de Unicamp, Aline Carvalho, no mês passado. Passeando com suas filhas pequenas em uma praça, um menino da mesma idade delas para ao seu lado e pergunta sobre os brinquedos que elas têm nas mãos. Eram apetrechos plásticos de cozinha. Simulavam, com outros meninos e meninas, estarem em uma cozinha fazendo bolos (de areia). O menino não entende a resposta. Ela explica para que servem panelas, garfos e copos. Ele pergunta se pode brincar. A voz paterna, masculina e tóxica, sobrevém forte: “Estes são coisas de menina!”. Com olhar baixo, o garoto se desculpa e vai embora. Não sem antes ouvir da Aline: “São apenas brinquedos e eles são apenas crianças”. Certo tipo de homem ainda sofre e faz sofrer. É preciso ter esperança. 

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