O vício de Zeno

Prosa de Sábado

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Viciei-me em Mad Men. A única coisa que me incomoda na magnífica telessérie retrô da HBO, aqui fora do ar no momento, é o fumacê. Seus personagens, empregados de uma agência de publicidade da Madison Avenue, fumam mais do que Jean-Paul Belmondo nos filmes de Godard. "Fumar é quase obrigatório no escritório", comenta Peggy Olson, novata na agência, com um amigo.

Fumava-se muito (e em qualquer lugar) naquele tempo, anos 1960, é verdade, mas não tanto como na agência Sterling Cooper. O hiperbólico tabagismo de Mad Men não é apenas uma afetação expressionista; o desconforto que provoca nos telespectadores tem, a meu ver, um propósito crítico: evitar que sintamos inveja ou nostalgia de uma época em que qualquer ambiente e até pessoas muito chiques e bonitas costumavam feder a cigarro.

Pondo em dia as quatro primeiras temporadas da série, em DVD, me lembrei não só de Belmondo, mas também de Ed Crane, o barbeiro interpretado por Billy Bob Thornton em O Homem Que Não Estava Lá, dos irmãos Coen. Fumante compulsivo, Crane acendia um cigarro atrás do outro. Aflitivo, sem dúvida, mas nada gratuito. O filme se passa nos anos 1940, quando fumar ainda parecia algo inofensivamente glamouroso e virilizante, um prazer genial, sensual, como no tango de Gardel e na cabeça dos publicitários de Mad Men.

Quando vejo alguém fumar, faço que nem o escritor Jonathan Franzen e me ponho a imaginar os estragos a que os pirenos e os fenóis submetem as tenras células epiteliais de seus brônquios - e dos meus, se não prender a respiração. Não sou leigo no assunto; faz quase 40 anos que parei de fumar, como se deve parar: de estalo e de uma vez por todas. Foi o melhor presente que dei ao meu corpo e à minha psique.

"Quando eu falei com o doutor sobre a minha fraqueza por cigarros, ele sugeriu que iniciássemos minha análise recapitulando a evolução do meu vício desde o princípio." Assim começa o maior romance sobre o tabagismo já escrito, A Consciência de Zeno, do italiano Italo Svevo, aqui traduzido em 2001 pela Nova Fronteira. Nele, a patológica relação do homem com o ato de fumar é submetida a uma terapia de inspiração freudiana. Mas sem divã. Seu protagonista, Cosini Zeno, tenta curar-se do vício historiando sua evolução por escrito, como um Proust da nicotina. Sua madeleine é um velho maço de cigarros austríacos, há tempos fora do mercado.

Que eu saiba, o romance de Svevo não induziu ninguém a deixar de fumar. Teria sido diferente no século 19? Talvez. Em 1923, quando o romance foi publicado, o poder de influência da literatura nos hábitos das pessoas já não era páreo para a força persuasiva do cinema, onde fumar foi tratado, por décadas a fio, como um hábito acima de tudo sofisticado, sociabilizante - e cinematográfico. O que seria do filme noir sem as sedutoras baforadas de seus justiceiros e as tensas e nervosas tragadas de seus vilões? A Estranha Passageira teria a mesma fama sem aquela cena em que Paul Henreid acende dois cigarros na boca e oferece um deles a Bette Davis?

Embora convicto de que o tabaco deforma o paladar, o sentido primordial dos gourmets, o comilão Alfred Hitchcock era absolutamente fascinado por cigarros, charutos, isqueiros e demais acessórios relacionados com o fumo. Seus fumantes o abasteceram de tomadas visualmente insólitas (como a de Jessie Royce Landis apagando um cigarro na gema de um ovo frito em Ladrão de Casaca), momentos de prolongado suspense (o isqueiro de Farley Granger no bueiro de Pacto Sinistro) e sequências literalmente explosivas, como a do posto de gasolina em Os Pássaros.

Conheço mais de um estudo sobre o conluio das companhias de tabaco e os estúdios de Hollywood visando a estimular o hábito de fumar, promover determinadas marcas de cigarro e escamotear o mal que o tabagismo faz à saúde. A R.J. Reynolds chegou a contratar um publicista para abastecer atores, atrizes e cineastas de cigarros, graciosamente, pois interessava à indústria do fumo mantê-los viciados e marqueteiros, na tela e em público.

Essa prática conseguiu resistir até as vésperas de o cigarro ser praticamente banido das telas, no final do século passado. Sylvester Stallone ainda pegou esse jabá, embolsando meio milhão de dólares para tragar determinado cancerígeno com filtro em cinco filmes de sua produção. E pensar que Humphrey Bogart, Gary Cooper, John Wayne, Steve McQueen, Yul Brynner e outros durões não ganharam um centavo para arruinar seus pulmões e seus esôfagos com os produtos da Reynolds e da Philip Morris.

A certa altura da vida, John Wayne decidiu parar de fumar. Antes, como Cosini Zeno, acendeu o seu "último cigarro". E depois, e outro, e mais outro. Até que desenvolveu um câncer no pulmão. Duas vezes, por sinal: em seu derradeiro filme, O Último Pistoleiro, rodado em 1976, e na vida real, três anos mais tarde. Um cigarro o matara mais rapidamente em 1949, no filme Iwo Jima - O Portal da Glória. Terminada a batalha, Wayne relaxava e dizia a um de seus comandados: "Nunca me senti tão bem na vida." Em seguida, puxava um cigarro. Antes que pudesse acendê-lo, uma bala inimiga o atingia mortalmente. Premonição mais sinistra do que esta só a que vitimou a atriz Linda Darnell, queimada viva duas vezes na tela e uma na vida real. Onde há cigarro, há fogo. Por isso, aliás, até mesmo quando muito se fumava na tela, era proibido fumar dentro dos cinemas.

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