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O vice-almirante

O príncipe Andrew seria promovido a almirante no seu aniversário, mas pediu que a promoção fosse adiada até que perdoassem ou esquecessem seus pecados

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2020 | 03h00

Brexit, o apelido da secessão inglesa da União Europeia, não faz nenhum sentido nem traz qualquer vantagem discernível para os ingleses, que mesmo assim o festejam como uma vitória na Copa. A explicação para a contradição só pode ser o amor que os ingleses têm pelas excentricidades que os distinguem do resto do mundo. Só na Inglaterra uma questão como a que hoje divide opiniões em todo o país seria discutida com o mesmo fervor cívico: as bandeiras do reino devem ou não ser hasteadas para comemorar o aniversário de Andrew, duque de York, segundo filho da rainha Elizabeth, oitavo na linha de sucessão ao trono e amigo intimo do financista Jeffrey Epstein, que lhe fornecia adolescentes para sexo? No próximo dia 19 de fevereiro Andrew completará 60 anos. As bandeiras são hasteadas normalmente em prédios públicos e do governo nos aniversários e na data de casamento da rainha e seu marido e nos aniversários de toda a família real. A determinação do conselho que orienta esses rituais para a coroa, depois que conselhos regionais questionaram a obrigação de saudar um pedófilo com as cores do império, foi a de contrariar anos de História e tradição e suspender a obrigação. Está decidido, as bandeiras não tremularão para Andrew. 

O príncipe é vice-almirante da marinha inglesa e seria promovido a almirante no seu aniversário, mas pediu que a promoção fosse adiada até que perdoassem ou esquecessem seus pecados. Participou, como piloto de helicóptero a bordo do porta-aviões Invencible, da Guerra das Malvinas, ou das ilhas Falkland, dependendo do que você pensa que houve naquela pedra no fim do mundo, um delírio criminoso argentino ou uma prepotência criminosa inglesa. Dizem que foi a rainha que insistiu que Andrew não fosse poupado das ações da guerra, talvez prevendo que no futuro faltaria ao seu segundo uma firmeza de caráter que só se adquire em combate, ou com alguma privação econômica, o que jamais seria o caso de um príncipe subvencionado.

A gente olha fotos do Andrew hoje e vê um homem, como diziam antigamente, “bem-apessoado” - seja lá o que isso signifique - em aparente paz com sua situação. Um vice-almirante com nenhuma outra perspectiva na vida do que a de, com o tempo, tornar-se um almirante inteiro. 

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