O vermelho que beija o céu

O aclamado arquiteto francês Jean Nouvel surpreende os ingleses com um pavilhão que brinca com a forma e a vibração da cor

Jonathan Glancey, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Jean Nouvel está diante de sua primeira construção britânica, uma chamativa estrutura vermelha instalada em meio ao verde ensolarado de Kensington Gardens no centro de Londres, e diz: "Um transeunte passa pelo parque. Olha ao redor. Repara no vermelho em meio às árvores. O que é aquilo? Velas? Um circo? Não é possível saber do que se trata, e assim, o melhor é dar uma olhada mais de perto."

O arquiteto francês está falando do pavilhão de verão que criou para a Serpentine Gallery, recém-aberta para o público. Em que se inspirou para criar esta rapsódia em vermelho? "Foi aquele momento em que o sol de verão nos enche os olhos e, enquanto piscamos, o mundo se dissolve no vermelho", conta ele. O pavilhão de Nouvel - o décimo a enfeitar este parque londrino - não é só vermelho do lado de fora. Sob a imponente estrutura vermelha de aço e a cobertura retrátil de tela vermelha, há um assoalho de borracha vermelha, ao redor do qual há mesas vermelhas de pingue-pongue, redes vermelhas para descanso, mesas e cadeiras vermelhas e tabuleiros vermelhos de xadrez. Até o auditório e a cafeteria são vermelhos (assim como seus refrigeradores). E, para aqueles que não conseguirem enxergar o pavilhão de longe, logo ao lado dele há uma parede vermelha de vidro de 12 metros, erguendo-se da grama como um imenso ponto de exclamação.

Este "imenso relógio de sol", como Nouvel se refere a ele, inclina-se num ângulo inquietante, dando a impressão de ameaçar o pavilhão e acrescentando certa dramaticidade, ou até uma sensação de perigo, a esta chamativa criação. "De certa forma, o pavilhão é um dispositivo solar, uma forma de redirecionar a luz do sol. Sob outro aspecto, é uma delicada flor que se ergue no parque sob o sol de verão, murcha no outono, e então desaparece. É claro que, de muitas maneiras, o vermelho é também a cor de Londres - os ônibus, as caixas do correio, os soldados da rainha - mas a cor está relacionada principalmente ao sol." Mas Nouvel, que segue os passos de outros célebres arquitetos que já passaram pela Serpentine, como Oscar Niemeyer, Zaha Hadid, Toyo Ito e Rem Koolhaas, quer que o pavilhão seja mais do que um anteparo solar.

"Quero que ele atraia e filtre as emoções, que seja um pequeno espaço de calor e deleite. Para um arquiteto, é sempre um prazer trabalhar com um projeto sem maiores consequências; o pavilhão surge, e depois desaparece. Deixa uma impressão, ecos de uma emoção, nada mais. Assim, o arquiteto tem liberdade para ser um artista. Não se trata de um exercício perfeito de arquitetura, e sim de uma construção saída de um sonho que nos permite ter algumas sensações, as quais espero que sejam felizes. É como se a arquitetura tirasse férias."

O pavilhão de Nouvel é uma construção simples que, quando inspecionada de perto, mostra ser muito mais do que uma mera escultura de cores vibrantes. Partes de suas superfícies vermelhas absorvem a luz, e outras a refletem; algumas reluzem, outras são translúcidas. Sob o teto retrátil pendem fotos de outro grande parque numa grande capital: o Jardin du Luxembourg, de Paris - mas trata-se de um parque formal, como a maioria dos parques franceses, diferentes dos parques britânicos, mais relaxados e divertidos. As fotos são de Jean Baudrillard, festejado filósofo francês que morreu três anos atrás; ele foi uma das principais influências de Nouvel, além de ter sido amigo dele.

Brinquedo. Com alguma ajuda de engenheiros da Arup comandados por David Glover e Cecil Balmond, o espaço foi claramente projetado na forma de um brinquedo. É verdade que o auditório abrigará debates sérios e eventos de todo tipo. Mas antes que as pessoas participem de tais ocasiões, elas podem se encontrar para conversar no bar vermelho - ou jogar pingue-pongue vermelho, ou chutar uma bola vermelha de futebol ou arremessar um frisbee vermelho no parque. De onde vem tamanho espírito brincalhão?

Bem, o pavilhão da Serpentine é tradicionalmente projetado por um arquiteto que ainda não tenha concluído ou construído uma obra na Grã-Bretanha. No entanto, o pavilhão de 2010 quase foge a essa tendência: nos próximos meses será inaugurado o One New Change, controvertido complexo de escritórios e lojas ao leste da Catedral de St. Paul. Trata-se de um projeto de arquitetura séria: o próprio Nouvel disse que o edifício é como um bombardeiro invisível; apesar de imenso, seu revestimento é de vidro opaco, como se tentasse disfarçar seu volume.

Em resumo, o projeto parece tão brincalhão quanto um reator nuclear. O príncipe Charles tentou acabar com as chances da indicação de Nouvel, mas não conseguiu que seus arquitetos preferidos fossem nomeados para o projeto. Ao brincar com a arquitetura, o pavilhão nos proporciona uma espécie de balanço do que está por vir.

O melhor de Nouvel. Parece uma pena que a primeira grande obra de Nouvel na Grã-Bretanha seja um gigante comercial. Sua criatividade se presta mais a projetos como galerias de arte, salas de concerto e museus. As melhores obras do arquiteto de 64 anos são o Institut du Monde Arabe, maravilhosa sede da fundação cultural às margens do Sena, concluída em 1987 como um dos grandes projetos do presidente Mitterrand; a Fondation Cartier, de 1994, belo e discreto centro de artes parisiense que se revela por meio de camadas sucessivas de imensos painéis de vidro; e a Sala de Concertos de Copenhagen, um cubo de tela que, quando iluminado à noite, produz um efeito encantador. Cada um desses edifícios enigmáticos e atentamente construídos se expressa numa coloração dominante: prateado, branco, azul.

"A arquitetura é diálogo", diz Nouvel. "Os arquitetos precisam proporcionar uma janela para o futuro, mesmo quando a janela se recusa a se abrir."

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