O vermelho?

Minha amiga Luciana, que é fotógrafa e mora com o filho na Vila Madalena, contou na semana passada que perdeu o celular. Ligava para o número. Ouvia-o tocar, na linha fixa, mas não soava a musiquinha característica do celular em lugar nenhum do apartamento. Falou para a faxineira. Perdi o celular, acho, você não o viu por aí, não, né?

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

? O vermelho?, respondeu a profissional da limpeza.

? Sim! O vermelho, replicou Luciana, já esperançosa.

? Vi no lixo, aqui na cozinha.

? No lixo, não acredito! E agora? Onde está?

? Deve ter ido lá para baixo com os outros saquinhos.

Na versão da Luciana, o tempo urgia. O caminhão do lixo passaria naquele dia mesmo, a qualquer hora. Não era o momento de discutir se fazia parte das obrigações da faxineira retirar o telefone do lixo ou não.

Lu desceu em alta velocidade até o térreo, onde encontrou o porteiro. Esse diálogo ela não me contou em mais detalhes, infelizmente. Deve ter sido divertido. Explicou que o celular dela havia sido jogado fora por acidente. Perguntou se o lixeiro já havia passado. Ainda não. Ufa! Onde estaria o lixo do seu apartamento? O porteiro levou-a para uma sala com três grandes de sacos de lixo amontoados, com poucas marcas características para distinguir um do outro. Impossível identificar o da sua cozinha.

Mas ela teve uma ideia. Subiria para o apartamento e ligaria para o aparelho. Pediu ao porteiro que ficasse ali mesmo e tentasse identificar de qual saquinho vinha a musiquinha. Talvez tenha contado a ele qual era a música, se a Nona do Beethoven, ou Light My Fire, não sei, mas duvido um pouco.

Se estas mal traçadas fossem um filme, a cena, agora, seria a do porteiro. A câmera ficaria ali embaixo, no térreo. Mas não é. Só posso imaginá-lo ali, na sala do lixo, esperando soar uma musiquinha de um dos montes de saquinhos. Quando Luciana voltou lá de cima, depois de ter feito a ligação para o saco de lixo, o celular já estava no bolso da camisa do porteiro. Sim, o vermelho.

Fiquei pensando, depois, qual seria a moral dessa história, que achei boa. A resposta é: o celular já virou "commodity", palavra ainda sem equivalente em português, cuja tradução, neste caso apenas, seria descartável. Óbvio, né? Mas o interessante é que a faxineira não apenas achou natural o celular estar no lixo, como não pensou em recuperá-lo para si. O valor percebido do aparelho era zero, apesar da sua cor e do formato moderno (vi depois).

Desconfiei desse status "novo" do celular pela primeira vez já faz algum tempo, quando meu amigo Antônio Pedro Tota apareceu com um aparelho desse menorzinhos. Para quem não sabe, o professor, como é mais conhecido, é historiador e pouco chegado a avanços tecnológicos. Ao conhecê-lo, há 30 anos, utilizava uma banheira de madeira para a higiene dos filhos, por considerar o plástico uma concessão ao imperialismo. Sem falar da sua barba de ZZ Top. Ou da bata indiana. Durante anos, resistiu ao celular.

? Para que preciso levar o telefone para toda parte?, questionava.

Hoje em dia, como se diz, o professor já me manda mensagens de texto. E finaliza um livro sobre as relações do americano Nelson Rockefeller, herdeiro da Standard Oil, com o Brasil. Seu próximo passo vai ser um smartphone, ou iPad, esses aparelhos portáteis que acessam a internet.

Li na revista The Economist, aliás, que até o presidente Barack Obama andou reclamando dos avanços tecnológicos na área de informação e entretenimento. Disse aos alunos de uma universidade americana que com "iPods e iPads e Xboxes e PlayStations" a informação vira entretenimento, "uma distração", em vez de funcionar como uma ferramenta. É irônico isso, vindo de um político que dorme com um smartphone e ganhou a eleição com a primeira campanha presidencial feita pela internet. Recebo mensagens eletrônicas ? spam ? dele e da Michelle até hoje.

Desconfio que a humanidade quer mesmo é distração.

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