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O vermelho e o negro

Anos de mau convívio ensinaram a sociedade civil romana a manter os generais e suas legiões longe do poder, ou das tentações do poder

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 03h00

Os militares não podiam ter seus quartéis dentro dos perímetros da Roma antiga. Anos de mau convívio ensinaram a sociedade civil romana a manter os generais e suas legiões longe do poder, ou das tentações do poder. Não adiantou muito: foram os generais e suas legiões que fizeram história enquanto os tribunos faziam discursos. Roma antiga nos legou grandes peças de oratória contra a promiscuidade indesejada de políticos e militares que acabaram sendo hinos à hipocrisia. O papel dos militares num tempo de paz, portanto, é uma discussão que precede Roma, precede qualquer sociedade minimamente organizada e também precede a hipocrisia. 

O que fazer com um poder armado quando ele não é necessário? Ou quando fazer guerra não é mais sua atribuição principal, mas ele mantém seu garbo e suas verbas? O romancista francês Stendhal, na sua obra mais importante, O Vermelho e o Negro, que não tem nada a ver com as cores anarquistas ou com as cores do Flamengo, escreveu sobre os dois caminhos que um jovem indeciso, lançando-se no conturbado mundo da Europa pós-napoleônica, deveria contemplar para ter uma carreira respeitável. A escolha era entre o vermelho da Igreja, e o negro do Exército. Em nenhum momento da narrativa o protagonista de Stendhal revela uma vocação religiosa ou atração pela vida militar. Ele talvez seja o primeiro personagem da literatura a fazer uma escolha fria entre instituições que perderam o sentido, pensando só na sua carreira e inaugurando o herói moderno. 

Desde a Roma antiga, desde antes da Roma antiga, desde antes do antes do antes, o que fazer com um poder armado num tempo de paz? Se ele não é o poder moderador que pretende ser, mas o ministro Fux diz que não é, o que é então? Julien Sorel, o personagem de Stendhal, escolhe o sacerdócio, mas não renuncia às mulheres e acaba guilhotinado. Se tivesse escolhido a farda teria uma bela carreira militar e acabaria, provavelmente, reformado em vez de decapitado. E teria tempo para meditar sobre o papel das forças armadas através dos tempos, desde as primeiras cavernas. 

 

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